A alienação do trabalho

O trabalho é central para a reprodução do gênero humano, sua história praticamente se confunde com a história do próprio desenvolvimento da humanidade, uma vez que é através do trabalho que o homem se desenvolve. Ele surge como o meio de satisfação das necessidades humanas ligadas à sobrevivência, como o meio de transformação da natureza, ou seja, apresenta-se como o próprio meio de conservação e perpetuação da existência dos homens.

“O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem – quaisquer que sejam as formas de sociedade –, é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana.” (Karl  Marx)

Figura reproduzida do site: https://conceitos.com/trabalho-alienado/

Ao longo do tempo, as necessidades humanas foram se complexificando e passaram a não se restringir à questão da subsistência, ampliando-se, assim, às questões culturais. Tal avanço não pressupôs apenas alterações no ato de trabalhar, mas em seus instrumentos, os quais foram passando por um intenso e contínuo processo de desenvolvimento. O aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho significa um aperfeiçoamento do próprio ser humano, que, à medida que exerce as atividades laborais, desenvolve novas habilidades, as quais, somadas com as anteriores, resultam em um homem cada vez mais ciente de seu potencial cognitivo e laboral, e de suas potencialidades de transformação da natureza.

Através do trabalho o homem realiza sua própria humanidade. Os seres humanos ao produzirem determinado objeto se sentem conectados a ele, pois colocam algo de si próprios ali, a coisa produzida é uma exteriorização do próprio homem, exterioriza uma ideia humana (sua capacidade cognitiva) com base em sua necessidade – por isso a palavra “exteriorização”, o trabalho coloca para fora algo que está dentro do homem e, assim, o objetiva, isto é, concretiza sua humanidade. O trabalho e o ser humano estão em uma relação recíproca de produção, ou seja, o ser humano produz o trabalho e o trabalho produz o ser humano. Essa “objetivação” do trabalho – e do trabalhador –, como chamou Marx, é o que faz com que o trabalhador se sinta detentor de seu produto e, no limite, de si mesmo.

Quando um sujeito não consegue estabelecer essa conexão com a sua criação, quando se sente externo ou alheio a ela, tem-se a alienação do trabalho. Quando, também, resume-se o trabalho a mera satisfação das necessidades ou caprichos alheios – e não os próprios – ele, ao invés de objetivar o trabalhador e proporcionar sua realização enquanto sujeito, o desumaniza.

“O que, então, constitui a alienação do trabalho?

Primeiro, o fato de que o trabalho é externo ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua natureza intrínseca; que em sua obra, portanto, ele não afirma a si mesmo, mas nega a si mesmo; não se sente contente, mas infeliz; não desenvolve livremente sua energia física e mental mas mortifica seu corpo e arruína sua mente. O trabalhador, portanto, apenas se sente ele mesmo fora de seu trabalho, e em seu trabalho se sente fora de si mesmo. Ele se sente em casa quando não está trabalhando e, quando está trabalhando, não se sente em casa. Seu trabalho, portanto, não é voluntário, mas coagido; é trabalho forçado.” (Karl Marx)

O trabalho é transformado em um instrumento de opressão do trabalhador, sendo este apenas um meio, um instrumento, da satisfação do interesse de outros homens. Os donos dos meios de produção, os proprietários, possuem, assim, não apenas os produtos do trabalho da classe proletária, mas possuem sua própria humanidade em si.

O homem, alienado de si mesmo, não vê, tampouco, humanidade em outros homens. Desta maneira, a alienação do trabalho irá invadir as relações humanas, impedindo o desenvolvimento da comunhão entre os homens e alterando os valores pelos quais seriam pautadas essas relações, o que resulta na diminuição das possibilidades de desenvolvimento das potencialidades humanas, as quais aumentam quando inseridas em contextos de cooperação.

O modo de produção capitalista, hegemônico mundialmente, possui como meta o constante aumento da acumulação e, consequentemente, da produção. Nesse processo não há mais a preocupação na satisfação real das necessidades humanas, mas, ao contrário, há a criação de novas necessidades para ampliar o consumo e há a contínua desumanização do trabalhador que, ao estranhar o produto do seu trabalho e estranhar a si mesmo, passa a naturalizar sua condição, a qual passa a ser compreendida como o “normal” da vida, impedindo possibilidades de indignação diante dessa situação. Essa naturalização somada a desumanização dos outros homens, aloca o ser humano em uma posição de isolamento e, com isso, naturaliza-se também o sofrimento, pois o homem está afastado de suas obras, de outros homens e de si mesmo.

Questão

(ENEM 2011) As relações sociais, produzidas a partir da expansão do mercado capitalista — e o sistema de fábrica é seu “estágio superior” —, tornaram possível o desenvolvimento de uma determinada tecnologia, isto é, aquela que supõe a priori a expropriação dos saberes daqueles que participam do processo de trabalho. Nesse sentido, foi no sistema de fábrica que uma dada tecnologia pôde se impor, não apenas como instrumento para incrementar a produtividade do trabalho, mas, muito principalmente, como instrumento para controlar, disciplinar e hierarquizar esse processo de trabalho.

DECCA, E. S. O Nascimento das Fábricas. São Paulo: Brasiliense, 1986 (fragmento).

Mais do que trocar ferramentas pela utilização de máquinas, o capitalismo, por meio do “sistema de fábrica”, expropriou o trabalhador do seu “saber fazer”, provocando, assim,

a) A desestruturação de atividades lucrativas praticadas pelos artesãos ingleses desde a Baixa Idade Média.

b) A divisão e a hierarquização do processo laboral, que ocasionaram o distanciamento do trabalhador do seu produto final.

c) O movimento dos trabalhadores das áreas urbanas em direção às rurais, devido à escassez de postos de trabalho nas fábricas.

d) A organização de grupos familiares em galpões para elaboração e execução de manufaturas que seriam comercializadas.

e) A associação da figura do trabalhador à do assalariado, fato que favorecia a valorização do seu trabalho e a inserção no processo fabril.

A alternativa correta é a letra B.

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Sobre o Autor

Brenda Buzzo
Brenda Buzzo

Estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Possui formação técnica na área de alimentos pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Campus São Roque. Tem experiência em pesquisa na área de sociologia da alimentação e possui interesse nas áreas de pensamento social, estudos de gênero e sociologia política.