A CORREÇÃO DA REDAÇÃO DO ENEM

Passada a aplicação da prova do ENEM 2013 e a expectativa de conhecer o tema da redação, que este ano foi “Efeitos da Implantação da Lei Seca no Brasil”, vem a preocupação e a curiosidade em saber como a correção é realizada, já que o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) divulgam, apenas, uma parte da grade de correção, pois sabe-se que, somente no treinamento dos corretores é que esta é esmiuçada e detalhada.

No entanto, vale ressaltar, esta publicação já ajuda, e muito, a entendermos o que as bancas elaboradora e corretora esperam de um candidato que preste o ENEM, pois tem-se conhecimento acerca das cinco competências, porém, apesar disso, há ainda algumas dúvidas e é sobre elas que falaremos hoje.

No artigo da semana passada, a respeito da análise do tema da redação do ENEM 2013, um leitor, chamado Pedro, fez um comentário com algumas perguntas sobre as quais não podemos responder com 100% de certeza, mas que temos alguma ideia de como respondê-las. Atenção: escreveremos aqui o que pensamos que acontece na correção das redações do ENEM, já que não fazemos parte da banca corretora; deixemos isso bem claro.

A primeira pergunta do leitor é “a banca que corrige as redações tem algum compromisso, ainda que em termos de identidade ideológica, com a banca que elaborou a questão e escolheu os temas motivadores?”. Este questionamento tem a ver com o entrosamento e a afinação entre as bancas que, obviamente, existem. A banca elaboradora formula a proposta, escolhe o tema e os textos motivadores e, sim, cria um viés temático para esta avaliação, já que deixa brechas para a construção da redação por parte do candidato e a banca corretora deve entender e avaliar os textos de acordo com o que a banca elaboradora pensou.

Somos seres ideológicos, já que nada nem ninguém é neutro, pois a todo momento estamos respondendo ativamente (seja concordando ou discordando, gostando ou não gostando, aceitando ou não aceitando etc) tudo o que lemos, vemos e ouvimos, como nossos interlocutores, por sua vez, estão respondendo ativamente tudo o que leem, veem e ouvem de nós. Portanto, sim, há uma identidade ideológica na prova do ENEM, um viés temático e as bancas devem estar afinadas em relação a ele.

A banca corretora do ENEM possui sim, sem dúvidas, o compromisso de corrigir as redações segundo a identidade ideológica e o viés temático proposto pela banca elaboradora e este compromisso, esta afinação é essencial para a correção correr menos e haver poucas terceiras correções, que é quando há uma discrepância por mais de cem pontos (entre as duas correções) ou se a diferença for superior a oitenta pontos em qualquer uma das cinco competências. As terceiras correções devem ser realizadas naquelas redações limites, que realmente geram dúvidas e distinções e não em muitos textos, já que há notas tradicionais de cada faixa. Quanto menos terceiras correções, melhor, pois isso significa que a grade de correção está funcionando e está sendo bem aplicada pela banca corretora que, por sua vez, está em sintonia com a banca elaboradora.

Ainda neste ponto, muitos alunos perguntam a seus professores o que acontece se o corretor do vestibular e/ou do ENEM não gostar da redação. Corretor de vestibular e de ENEM não tem de gostar da redação, tem, apenas, de avaliá-la e corrigi-la de acordo com a sua grade de correção; ele pode até não ter gostado, mas deve respeitar a grade acima de tudo e aplicá-la. Se esta permite aquela escrita, os pontos devem ser dados e a nota deve ser composta, mesmo se o corretor não gostou do modo como o candidato escreveu ou do que ele escreveu. Se a grade permite, ponto final.

A segunda pergunta feita a nós foi “Como influencia o imaginário social na capacidade de avaliação da banca que corrige as redações e na nota que ela dá aos candidatos?” e pode-se dizer que, numa correção, o imaginário social não deve influenciar a capacidade de avaliação da banca corretora, já que, novamente, esta deve, apenas, corrigir de acordo com a grade. Agora, se a grade de correção, de alguma forma, considera alguns aspectos deste imaginário, aí o corretor deve seguir seu trabalho, considerando o que a grade considera.

Tudo, numa correção deste tipo, baseia-se na grade, que por sua vez é formulada pela banca elaboradora, que é que manda. Com certeza alguns, vários ou até muitos corretores (dadas as proporções do ENEM, que possui corretores no Brasil todo, com diferentes formações e experiências) discordem de algum ponto ou de alguns pontos da grade, mas o trabalho dele é aplicá-la.

A última pergunta feita pelo leitor foi “Quais as representações mentais são hegemônicas, atualmente, nos saberes elaborados pela população através do senso comum?” e ela dá um artigo, um paper, com certeza! Esta resposta é difícil, pois depende de que tipo de saber estamos falando. Caso seja o saber relacionado ao tema, temos argumentos do campo do senso comum, como por exemplo, há candidatos e alunos que, independente do tema da redação, colocam a “culpa” de todos os males do mundo no capitalismo, na mídia, nas propagandas, até em temas distantes destes tópicos. Isso é senso comum, por exemplo. Senso comum denota falta de bom senso, de ponderação e de reflexão e tudo isso é sinônimo de uma redação pobre e rasa, pouco desenvolvida.

Esperamos ter, pelo menos, esclarecido um pouco mais as dúvidas e incertezas sobre a correção da prova de redação do ENEM. Novamente, é importante frisar, que escrevemos o que pensamos que acontece, já que não fazemos parte da banca corretora do ENEM. São hipóteses pensadas de acordo com o que temos conhecimento.

Até mais!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada em Letras/Português pela UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas/SP – Atua na área de Educação exercendo funções relativas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em grandes universidades públicas. Participou de avaliações e produções de diversos materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação.

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos leitores! Suas publicações serão sempre às quintas-feiras, não percam!

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