A naturalização das desigualdades

Ao se pensar em determinados problemas sociais, como as desigualdades de raça, gênero e classe, corre-se o risco de naturalizá-los, pois, muitas vezes, são compreendidos enquanto naturais e inevitáveis. É difícil enxergar outra forma de ser quando a forma que se é já está estabelecida há tanto tempo, por isso muitas pessoas afirmam que não adianta pensar nessas questões, uma vez que elas “sempre foram assim”. Tal pensamento, apesar de aparentemente considerar a história e a gênese das desigualdades, na realidade, está naturalizando-as e negando suas próprias imbricações com a história.

Dizer que “sempre foi assim” corresponde a uma postura resignada e conformista diante da realidade, pois exclui seus potenciais de transformação e assume que tal condição está para além de qualquer tentativa humana de mudança. Com isso, perde-se de vista as complexidades e desdobramentos dos processos históricos, o que, geralmente, desemboca em formas de pensamento conservadoras e preconceituosas, as quais entendem que se determinados grupos estão passando por problemas que outros grupos da sociedade não estão passando, a culpa dessa condição é da própria natureza daquele grupo e de suas características intrínsecas.  Por exemplo, determinadas pessoas defendem o estereótipo de que mulheres foram feitas para ficar em casa, restritas ao âmbito doméstico, pois possuem uma “natureza maternal”, são mais delicadas e muito emotivas; mas qual o fundamento científico dessa afirmação? Será mesmo que existe uma “natureza feminina” que determina onde as mulheres podem ou não estar?

A resposta está na história. Há vários exemplos de sociedades matriarcais (uma forma de organização social e política em que a mulher, anciã e/ou mãe possui a posição dominante na família ou na comunidade; é o oposto de patriarcal, no qual a figura dominante é o homem) e matrilineares (sistema de parentesco e organização social pautado na ascendência materna para a transmissão do nome, herança, pertencimento a um grupo e outros atributos referentes ao status social) que refutam a ideia de que o homem seria “superior” e naturalmente destinado à posição de dominação e as mulheres naturalmente subalternas. Assim, as justificativas biologizantes à desigualdade de gênero são contrapostas por exemplos históricos, demonstrando que os estigmas e estereótipos não são alicerçados na natureza, mas sim na história e nos interesses dos grupos que detém o poder.

A naturalização da desigualdade não é orgânica ou espontânea, é socialmente construída e reforçada pelas condições materiais e, consequentemente, imateriais da sociedade, isto é, as estruturas sociais materiais e simbólicas – fortemente influenciadas e baseadas nos interesses dos grupos dominantes da sociedade – reforçam continuamente essa naturalização para assegurar a legitimidade da realidade que elas mesmas produziram. Além disso, não se pode esquecer do papel dos aparelhos ideológicos – tal como o Estado, a instituição familiar, as escolas, a mídia etc – na reprodução e manutenção dessa legitimidade, visto que essa é produção de ideias, atuante em dimensões profundas da própria constituição do sujeito, suas crenças e até seu inconsciente, que irá sustentar a naturalização da desigualdade. Isto porque a ideologia não é apenas um conjunto de valores e preceitos aceitas voluntariamente pelos indivíduos, seu poder de coação é tão forte que sua adesão possui dimensões também involuntárias, logo, algumas pessoas podem reproduzir preconceitos sem ao menos compreender que tais ideias são preconceituosas, uma vez que tais noções, muitas vezes, estão estruturadas enquanto constituintes do imaginário social presente naquela sociedade.

Figura reproduzida do site: https://www.ocafezinho.com/2017/10/25/insanidade-da-desigualdade/

O âmago da questão é que não existe um suposto substrato “natural” dos sujeitos, das ideias ou da sociedade. Tudo que circunscreve a existência humana é produto da história e do trabalho, não há dimensão nenhuma da vida social que possua valores intrínsecos ou próprios. A atribuição de significados e valores advém da necessidade humana de cognoscibilidade do mundo, a qual não diz respeito a acessar a verdade presente nos objetos ou fatos em si, mas de conceituá-los para, assim, criar uma rede de sentidos que signifiquem a existência humana. Neste sentido, o fenômeno de naturalização da desigualdade, assim como qualquer outro tipo de naturalização social, atribui uma essência ao que, na realidade, é produto das atividades humanas. Naturalizar as construções sociais impede que as mazelas que permeiam as sociedades sejam vistas e, assim, impede sua resolução. O primeiro passo para melhorar os problemas do mundo é enxergá-los.

Questão

(ENEM 2016)

Tradução: “As mulheres do futuro farão da Lua um lugar mais limpo para se viver”.
Disponível em: www.propagandashistoricas.com.br. Acesso em: 16 out. 2015.

TEXTO II

Metade da nova equipe da Nasa é composta por mulheres.

Até hoje, cerca de 350 astronautas americanos já estiveram no espaço, enquanto as mulheres não chegam a ser um terço desse número. Após o anúncio da turma composta 50% por mulheres, alguns internautas escreveram comentários machistas e desrespeitosos sobre a escolha nas redes sociais.

(Disponível em: https://catracalivre.com.br. Acesso em: 10 mar. 2016)

A comparação entre o anúncio publicitário de 1968 e a repercussão da notícia de 2016 mostra a:

A) elitização da carreira científica.

B) qualificação da atividade doméstica.

C) ambição de indústrias patrocinadoras.

D) manutenção de estereótipos de gênero.

E) equiparação de papéis nas relações familiares.

A alternativa correta é a letra D.

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Sobre o Autor

Brenda Buzzo
Brenda Buzzo

Estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Possui formação técnica na área de alimentos pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Campus São Roque. Tem experiência em pesquisa na área de sociologia da alimentação e possui interesse nas áreas de pensamento social, estudos de gênero e sociologia política.