A questão da fome à luz das Teorias demográficas

A fome enquanto problema socioeconômico é comumente relacionada à questão do crescimento demográfico, mas será que apenas a quantidade de pessoas no planeta é a responsável por isso ou será que o problema é a má distribuição das riquezas? No artigo de hoje conheceremos três teorias demográficas que almejam responder essa questão.

A Fome não é apenas um problema fisiológico – ainda que a questão da desnutrição seja de extrema relevância e urgência, pois coloca vidas em risco e é responsável por diferentes problemas de saúde, desde hipovitaminoses até anemias – sua origem e suas formas de incidência são sociais. Isso quer dizer que para compreendê-la é necessário conhecer as condições materiais, técnicas, econômicas e sociais do mundo, as quais determinarão as formas de organização do trabalho e, consequentemente, de distribuição de renda – fatores essenciais à obtenção de alimentos.

A questão da fome precisa ser analisada a partir da problematização da alimentação enquanto um direito humano universal e inalienável, devendo, portanto, ser garantido concretamente por ações governamentais, legislações e políticas públicas em todos os países, os quais devem agir de acordo com as condições sociais existentes em cada localidade, como os fatores culturais, ambientais etc. Ademais, olhar para realidade pode suscitar diferentes questionamentos acerca das possibilidades de concretização desse direito, como por exemplo: há comida suficiente para todos no planeta? A população cresce em ritmo desenfreado, será que no futuro o número de pessoas ultrapassará a capacidade de produção de alimentos?

Figura reproduzida do site: https://noticias.r7.com/brasil/fome-ainda-e-realidade-para-milhoes-de-pessoas-no-mundo-02102018

Essas perguntas não são recentes, diversos outros estudiosos (em especial os demógrafos e geógrafos) já se debruçaram e teorizaram sobre o assunto. Para explicar de maneira sistemática as dinâmicas dos índices de crescimento populacional, bem como as problemáticas envolvidas e possíveis resoluções, surgiram as teorias demográficas: instrumentos de análise da dinâmica e funcionamento da organização dos seres humanos em sociedade, a qual, a partir da observação de tendências teoriza acerca da relação entre a quantidade de pessoas no planeta e a disponibilidade de recursos.

Principais teorias demográficas:

Teoria Malthusiana

Exposta em 1798, com a obra Ensaio sobre o princípio da população, a Teoria Malthusiana foi a primeira teoria de grande repercussão acadêmica e social. Seu criador, o economista inglês protestante, Thomas Robert Malthus, preocupado com os problemas socioeconômicos ingleses oriundos da Revolução Industrial, como a fome, o rápido aumento populacional e as precárias condições sociais se consolidando nas cidades, elaborou a seguinte teoria: As populações humanas – a menos que ocorram guerras, epidemias, desastres naturais ou outros fatores com grande potencial de dizimação – cresceriam em progressão geométrica (2, 4, 8, 16, 32…).  Em contraposição, a produção de alimentos se desenvolveria em progressão aritmética (2, 4, 6, 8, 10…), o que resultaria na ausência de recursos suficientes para suprir as necessidades alimentares da humanidade e, assim, a fome seria generalizada e, consequentemente, a morte também.

Para resolver o problema, defendia o controle de natalidade, o qual não seria pautado na utilização de métodos contraceptivos ou medidas educativas, mas sim no “controle moral”, principalmente sobre as famílias pobres – uma clara expressão da sua formação religiosa, pois se baseava na sujeição moral do homem, marcada pela abstinência sexual e pelos casamentos tardios.

Apesar de sua ampla aceitação na época, com o passar do tempo os erros e inconsistências começaram a ser percebidos, uma vez que sua hipótese se baseava em observações do comportamento demográfico em regiões limitadas e não considerava o enorme potencial de transformação trazido pelo avanço industrial e tecnológico.

Teoria Neomalthusiana

A conferência de paz, realizada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial, além de dar origem à Organização das Nações Unidas (ONU), também estabeleceu uma série de estratégias de desenvolvimento com o intuito de promover a paz entre os países e evitar futuras guerras, para tanto, concluiu-se que isso só seria possível com a diminuição das desigualdades econômicas em escala mundial e, portanto, a diminuição da miséria e da fome.

Assim, criou-se a Teoria Neomalthusiana, a qual explicava a fome nos países subdesenvolvidos partindo de suas taxas de crescimento demográfico e não de suas condições materiais e históricas de desigualdade, ou seja, considerava os números populacionais, mas não a incidência do colonialismo, imperialismo e da exploração nesses países. Ao associarem o crescimento demográfico ao desenvolvimento do país, os neomalthusianos propunham soluções antinatalistas, com base no controle populacional, pautadas no uso de métodos contraceptivos, em especial nos países subdesenvolvidos. Embora seus postulados sejam diferentes daqueles defendidos por Malthus, ambas teorias identificam o crescimento populacional como o cerne do problema.

Como ocorreu com a teoria malthusiana, a teoria neomalthusiana também foi amplamente criticada e refutada pelos estudos demográficos posteriores, que demonstraram que os países com queda na taxa de natalidade foram aqueles que estenderam suas conquistas econômicas à população, melhorando suas condições de vida.

Reformistas ou Marxistas

Contrapostos às teorias Malthusiana e Neomalthusiana, os reformistas, fortemente inspirados pelo marxismo, não identificam o crescimento demográfico como produtor de condições de pobreza ou subdesenvolvimento, como os malthusianos e neomalthusianos, pensavam justamente o contrário: são as condições de pobreza e subdesenvolvimento, as quais os países subdesenvolvidos são submetidos, que geram o aumento populacional e consequentemente o estado de fome e miséria.

Diante disso, ao invés do controle populacional, os reformistas defendem a adoção de programas socioeconômicos e profundas reformas sociais, visando a criação de condições materiais de igualdade, acesso à saúde, educação e outros elementos centrais à formação dos indivíduos e que, consequentemente, levaria à diminuição da taxa de natalidade. Para exemplificar sua tese, os reformistas citam os países desenvolvidos, cuja redução do crescimento demográfico só foi possível após a adoção de reformas sociais e, assim, da melhoria do padrão de vida da população.

Questão

(Enem 2018, Caderno de Questões Braile e Ledor) A fome não é um problema técnico, pois ela não se deve à falta de alimentos, isso porque a fome convive hoje com as condições materiais para resolvê-la.


PORTO-GONÇALVES, C. W. Geografia da riqueza, fome e meio ambiente. In: OLIVEIRA, A. U.; MARQUES, M. I. M. (Org.). O campo no século XXI: território de vida, de luta e de construção da justiça social. São Paulo: Casa Amarela; Paz e Terra, 2004 (adaptado).

O texto demonstra que o problema alimentar apresentado tem uma dimensão política por estar associado ao(à)

a) escala de produtividade regional.

b) padrão de distribuição de renda.

c) dificuldade de armazenamento de grãos.

d) crescimento da população mundial.

e) custo de escoamento dos produtos.

A alternativa correta é a letra B.

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