Análise da Redação do Vestibular Unesp 2018

A coluna sobre Redação do portal infoEnem despede-se do ano de 2017 com a análise da proposta de redação do vestibular da Universidade Estadual Paulista (Unesp) 2018, promovido pela Fundação Vunesp. A prova de redação do vestibular da Unesp integra a segunda fase do exame de entrada da universidade e, neste ano, foi realizado no último dia 18 de dezembro e os candidatos tiveram se escrever uma dissertação-argumentativa sobre o tema “O voto deveria ser facultativo no Brasil?”.

Como abordamos em textos anteriores nesta mesma coluna, a prova de redação da Unesp, em termos de temas, é uma caixinha de surpresas e o tema deste ano não poderia deixar de ser uma surpresa, já que a maioria dos candidatos espera que temas que abordem a questão do voto no Brasil sejam contemplados em anos eleitorais, o que não é o caso deste ano, mas sim de 2018. Apesar disso, trata-se de um tema atual e que sempre está em discussão, tanto nas escolas quanto na mídia brasileiras e, portanto, é de fácil acesso aos vestibulandos.

Mesmo antes de conhecermos a coletânea de textos, ao lermos o tema sabemos que os candidatos deveriam responder se o voto deveria ser facultativo, ou seja, opcional ou não no Brasil. Da maneira como o tema foi escrito, não há meio termo. Os candidatos deveriam opinar se o voto deveria ser facultativo ou não no país, isto é, assumir uma posição e argumentar a favor desta escolha.

Provavelmente os candidatos que ficaram “em cima do muro” e que não conseguiram opinar e argumentar a favor de uma posição terão prejuízo em sua nota, pois certamente trata-se de dissertações-argumentativas circulares.

A coletânea de textos é composta por apenas dois fragmentos que trazem opiniões favoráveis e contrárias ao voto facultativo; sendo assim, há opiniões favoráveis ao voto obrigatório que ajudam o candidato que optou por escrever de modo contrário ao voto facultativo. Resumindo: escrever contra o voto facultativo é escrever a favor do voto obrigatório e escrever a favor do voto facultativo é escrever contra o voto obrigatório, baseando qualquer opinião em argumentos sólidos e consistentes.

O primeiro texto da coletânea é um fragmento de um texto publicado em 2014, ano eleitoral, na revista Carta Capital, de autoria de Karina Gomes. Intitulado “O voto deveria ser facultativo no Brasil?”, assim como o tema de redação da Unesp 2018, aborda um levantamento do Instituto Datafolha divulgado à época que apontou que 61% dos eleitores são contrários ao voto obrigatório, previsto na Constituição Federal. Além disso, o texto de Karina Gomes expõe algumas opiniões acerca do tema:

Texto 1

Um levantamento do Instituto Datafolha divulgado em maio de 2014 apontou que 61% dos eleitores são contrários ao voto obrigatório. O voto obrigatório é previsto na Constituição Federal – a participação é facultativa apenas para analfabetos, idosos com mais de 70 anos de idade e jovens com 16 e 17 anos.

Para analistas, permitir que o eleitor decida se quer ou não votar é um risco para o sistema eleitoral brasileiro. A obrigatoriedade, argumentam, ainda é necessária devido ao cenário crítico de compra e venda de votos e à formação política deficiente de boa parte da população.
“Nossa democracia é extremamente jovem e foi pouco testada. O voto facultativo seria o ideal, porque o eleitor poderia expressar sua real vontade, mas ainda não é hora de ele ser implantado”, diz Danilo Barboza, membro do Movimento Voto Consciente.

O sociólogo Eurico Cursino, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o dever de participar das eleições é uma prática pedagógica. Ele argumenta que essa é uma forma de canalizar conflitos graves ligados às desigualdades sociais no país. “A democracia só se aprende na prática. Tornar o voto facultativo é como permitir à criança decidir se quer ir ou não à escola”, afirma.

Já para os defensores do voto não obrigatório, participar das eleições é um direito e não um dever. O voto facultativo, dizem, melhora a qualidade do pleito, que passa a contar majoritariamente com eleitores conscientes. E incentiva os partidos a promover programas eleitorais educativos sobre a importância do voto.

(Karina Gomes. “O voto deveria ser facultativo no Brasil?”. www.cartacapital.com.br, 25.08.2014. Adaptado.)

O segundo texto da coletânea, por sua vez, explora melhor os receios das pessoas contrárias ao voto facultativo: teme-se que, se o voto deixar de ser obrigatório no Brasil, muitas pessoas deixariam de ir às urnas e isso traria consequências negativas para a democracia brasileira. A descrença nos políticos brasileiros juntamente com a não obrigatoriedade do voto poderia gerar uma evasão nas eleições brasileiras em todos os níveis, mas um ponto crucial que os candidatos deveriam pensar para responder a pergunta do tema é: já que vivemos em uma democracia, o voto deveria ser um direito ou deveria permanecer sendo um dever?

É sabido que muitas pessoas votam apenas por obrigação e por receio de perder direitos como emitir ou renovar passaporte, participar de concursos públicos dentre outras sanções impostas aos eleitores que não comparecem às urnas e que podem ter seus títulos de eleitor cancelados. Também é de conhecimento de todos a imensa quantidade de votos nulos e brancos e que poucas pessoas assistem pela televisão ou ouvem pelo rádio os programas eleitorais.

Nesse contexto, o voto facultativo tornaria o eleitor brasileiro mais participativo, educada politicamente e atuante nas eleições? Ou aconteceria o contrário: haveria uma verdadeira evasão eleitoral caso o voto deixasse de ser obrigatório?
São estas as questões suscitadas pelo segundo texto da coletânea, um fragmento de um texto publicado na revista Exame em agosto deste ano, de autoria de Raphael Martins e intitulado “O que falta para o Brasil adotar o voto facultativo?”:

Texto 2

Há muito tempo se discute a possibilidade de instauração do voto facultativo no Brasil. Mas são diversos os fatores que travam a discussão.

Atualmente, é a Lei no 4737/1965 que determina o voto como obrigatório no Brasil, além dos dispositivos e penas a quem não comparece ao pleito. Com a imposição, o país segue na tendência contrária ao resto do mundo. Estudo divulgado pela CIA, que detalha o tipo de voto em mais de 230 países no mundo, mostra que o Brasil é um dos (apenas) 21 que ainda mantém a obrigatoriedade de comparecer às urnas.

Para Rodolfo Teixeira, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), a atual descrença na classe política pode levar a uma grave deserção do brasileiro do processo eleitoral. O jurista Alberto Rollo, especialista em Direito Eleitoral e membro da comissão de reforma política da OAB de São Paulo, concorda e acredita que o eleitor brasileiro ainda é “deficitário” do ponto de vista de educação política, sem ser maduro o suficiente para entender a importância do voto: “Se [o voto facultativo] fosse implementado hoje, mais da metade dos eleitores não votaria. Isso é desastroso”, afirma.

O cientista político e professor da FGV-Rio Carlos Pereira pensa diferente. O especialista acredita que as sete eleições presidenciais depois do fim da ditadura militar mostram que o momento democrático do Brasil está consolidado. O voto facultativo seria mais um passo a uma democracia plena.

“O argumento de que o eleitor pobre e menos escolarizado deixaria de votar parte de um pressuposto da vitimização. É uma visão muito protecionista”, diz Pereira. “O eleitor mais pobre tem acesso à informação e é politizado: ele sabe quanto está custando um litro de leite, uma passagem de ônibus, se o bairro está violento, se tem desemprego na família. É totalmente plausível que ele faça um diagnóstico e decida em quem votar e se quer votar.”

(Raphael Martins. “O que falta para o Brasil adotar o voto facultativo?”. http://exame.abril.com.br, 01.08.2017. Adaptado.)

Ambos os textos expõem opiniões e argumentos de especialistas que suscitam a reflexão por parte dos candidatos que, aliás, já deveriam ter uma opinião no mínimo mais ou menos formada a esse respeito, já que se trata de um assunto amplamente debatido nas escolas e na mídia. A reflexão sobre as possíveis consequências do voto facultativo no Brasil, o cenário político e social brasileiro e a educação política e cidadã no país são aspectos que não deveriam ser deixados de lado na análise deste tema.

Como este é o último texto desta coluna em 2017, gostaríamos de desejar a todos os leitores um desejo de um feliz ano novo e que 2018 seja um ano de realizações, de saúde, paz, felicidades, sucesso e educação! Feliz 2018 e muito obrigada pela confiança!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila é colunista semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas as quintas!

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Sobre o Autor

Fernando Buglia
Fernando Buglia

Físico formado pela Unicamp, professor de cursinho pré-vestibular e um dos proprietários do portal infoEnem.