Análise da Redação do Enem PPL 2014 – “Rolezinhos”

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) possui uma versão para pessoas privadas de liberdade – o Enem PPL – destinado a pessoas que cumprem penas em presídios. Neste ano, o Enem PPL foi aplicado nos dias 9 e 10 de dezembro para 38,1 mil candidatos, além dos participantes da cidade de Escada, localizada na Zona da Mata pernambucana, que não puderam finalizar o Enem devido a uma queda de energia no prédio onde estavam fazendo a prova.

O Enem PPL é estruturalmente idêntico ao Enem, apenas destinado a um público exclusivo – jovens e adultos que cumprem medidas socioedutivas e penas – e, portanto, no segundo dia do exame há a proposta de redação e, neste ano, o tema foi “O que o fenômeno social dos ‘rolezinhos’ representa?”.

Infelizmente não foi divulgada a proposta de redação completa, com todos os textos motivadores da coletânea, mas o Jornal do Comércio publicou parte da prova. Aliás, para quem tiver interesse em ler as provas do Enem PPL e fazê-las como forma de estudo e preparação para o Enem 2015, o Portal EBC disponibiliza os exames anteriores e seus respectivos gabaritos.

Voltando à proposta de redação do Enem PPL 2014, pensamos ser interessante este tema por algumas razões.

O Enem PPL 2014 trouxe um tema bastante recente, já que os rolezinhos estiveram em pauta desde o fim de 2013 e até foi assunto nesta coluna, no texto Redação e “Rolezinhos”, já que gerou uma enorme repercussão e discussão em todo o país, envolvendo várias esferas da sociedade brasileira.

Outro motivo que o deixa interessante no Enem PPL 2014 é que os criadores e os frequentadores dos “rolezinhos” foram alvos de preconceitos por parte da mídia e da população, assim como acontece com os jovens e adultos que cumprem penas criminais, visto a dificuldade que o Brasil tem de reeducá-los e de reinseri-los na sociedade; muitos não conseguem colocações no mercado de trabalho, por exemplo.

Obviamente podíamos discutir todas as causas e consequências destes problemas sociais, mas infelizmente o espaço é pequeno e, por isso, vamos nos atentar à análise da proposta de redação do Enem PPL 2014.

O primeiro texto motivador da coletânea conta a origem dos “rolezinhos” e mostra a importância para o jovem de conhecer um ídolo, seja ele um “famosinho” da rede social ou um MC (mestre de cerimônias do funk). Deste modo, este primeiro texto motivador situa o candidato acerca do tema.

Já o segundo texto motivador é uma charge que retrata a atuação dos shoppings ao barrar jovens humildes em suas dependências, pois o cartunista mostra um segurança pedindo a dois meninos a carteira de identidade e um extrato bancário a fim de analisar se permite ou não a sua entrada.

Esta charge é, claramente, uma crítica ao comportamento dos empresários do comércio frente aos “rolezinhos”, já que os proibiu e apenas permitiu a entrada de jovens de determinada classe social e, possivelmente, de determinada etnia.

Por fim, segundo Margarida Azevedo, jornalista que assina a coluna do Jornal Comércio, o terceiro texto motivador da coletânea era do site Geledés Instituto da Mulher Negra e abordava as atitudes dos MCs e as relacionava com o funk ostentação e, consequentemente, com o consumismo e a exaltação do luxo.

Assim, diante deste cenário, o candidato deveria dizer o que o fenômeno dos “rolezinhos” representa ou representou na sociedade brasileira e responder a questões cruciais, como por exemplo, como isto iniciou, por que teve tanta repercussão, o que estava em jogo, por que incomodou tanto etc.

Aspectos como inclusão social por meio do consumo, influência do estilo musical e dos ídolos, direito de ir e vir, direito ao lazer que é tão pobre nas periferias do Brasil poderiam e deveriam ser tratados pelos candidatos ao Enem PPl 2014.

Os participantes poderiam colocar-se contra os “rolezinhos”? Possivelmente, mas estes deveriam atentar-se à charge que crítica a postura dos shoppings que, de uma certa maneira, segregaram os jovens que iam aos encontros e, para tanto, deveriam derrubar este argumento e construir um contra-argumento, provando que não houve discriminação, por exemplo.

No entanto, isto é difícil, já que o recorte temático da proposta partia para uma abordagem mais crítica em relação à segregação social e étnica promovida por parte dos comerciantes e por parte da mídia.

Assim sendo, é um tema atual, de ampla repercussão e que merecia um tratamento em um vestibular ou exame como o Enem, já que suscita discussões acerca de inclusão social, segregação, falta de oportunidades de lazer, consumismo e ostentação, tão presente na sociedade capitalista em que vivemos.

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!

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