Boa Esperança (Emicida) e o vestibular (Parte 1)

Continuando nossas análises musicais, hoje falaremos sobre outra música do disco Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa do rapper brasileiro Emicida. A faixa “Boa Esperança” teve seu clipe lançado em 2015, e não apenas a letra, mas mesmo o clipe provocou polêmicas; isso ocorreu por vários motivos, e um deles foi pelo artista expor a luta racial e de classe de forma explícita.

Como a canção é bem grande, iremos dividir a análise em duas partes!

A canção é feita em parceria com Jota Ghetto, que inicia cantando:

Por mais que você corra, irmão

Pra sua guerra vão nem se lixar

Esse é o X da questão

Já viu eles chorar pela cor do orixá?

E os camburão o que são?

Negreiros a retraficar

Favela ainda é senzala, Jão

Bomba relógio prestes a estourar

Nesse trecho, Jota Ghetto ilustra como a guerra vivida pelas vítimas de racismo é invisibilizada por “eles” (os detentores do poder na sociedade, majoritariamente homens branco e de classe alta). Além disso o cantor também ilustra como os camburões da polícia são uma cópia fiel dos Navios Negreiros (responsáveis pelo tráfico de pessoas durante a escravidão), visto que atualmente no Brasil os negros são maioria no sistema prisional (ENSP, 2020). Logo um novo trecho da canção se inicia, na voz de Emicida:

O tempero do mar foi lágrima de preto

Papo reto, como esqueletos, de outro dialeto

Só desafeto, vida de inseto imundo

Indenização? Fama de vagabundo

Nação sem teto, Angola, Ketu, Congo, Soweto

A cor de Eto, maioria nos gueto

Nesse trecho, o cantor ressalta mais uma vez a condição de tráfico humano que fez com que “o tempero do mar fosse lágrima de preto”. Além disso, o cantor também aborda outras questões, como o fato de negros serem maioria nos guetos e favelas (TETO Brasil, 2017), e sofrerem mais com a “fama de vagabundo” (um exemplo disso é o caso recente do jovem que foi abordado no Leblon por um casal branco, enquanto andava com SUA bicicleta elétrica, como se tivesse roubado o item – leia mais sobre o caso aqui).

O trabalho liberta, ou não?

C’essa frase quase que os Nazi varre judeu em extinção

Depressão no convés

Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois

Pique Jackass, mistério tipo Lago Ness, sério és

Tema da faculdade em que não pode por os pés

Nesse trecho, Emicida também aborda pontos relacionados ao nazismo e as manifestações implícitas da ideologia de ódio no Brasil – a frase “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) estava presente na fachada de diversos campos de concentração durante a ocupação nazista, em locais como a Polônia (campo de Auschwitz) e República Tcheca (campo de Theresienstadt), e era usada como estratégia pelos agentes nazistas para “incentivar” o trabalho escravo dos judeus em busca de uma suposta liberdade. Essa ideia é perpetuada até hoje no Brasil, de forma implícita, principalmente em casos de cunho racial contra pessoas que estão em situação de privação de liberdade.

No mesmo trecho o cantor fala sobre como a dor do racismo não é levada a sério (“a quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois”) e é subestimada na atual sociedade (quem nunca leu algum comentário em redes sociais acusando alguma denúncia de crime de racismo como sendo “mimimi”?).

Finalmente, o cantor aborda o fato de que temas raciais e de representatividade são muito discutidos em faculdades, mas os estudantes negros ainda são minoria nesses espaços (isso está mudando desde o lançamento da música! Ainda bem! Leia mais aqui) e têm seu espaço de fala violado.

Agora que terminamos essa primeira parte da análise, vamos tentar responder uma questão de vestibular?

(Unespar 2017)

“Afirmar que o racismo no Brasil é sutil, significa fechar os olhos para a crueldade a que foi historicamente submetida a população negra. Verificam-se, então, dois mecanismos que se conjugam, traduzindo algumas facetas do racismo brasileiro. Por um lado, temos a ‘quase invisibilidade’ da questão racial. Embora os inúmeros dados demonstrativos da situação injusta e crítica vivenciada pelos negros no Brasil estivessem em desníveis há décadas, somente nos últimos anos eles foram trazidos a público, no bojo dos debates sobre a implementação de políticas afirmativas, em decorrência das iniciativas do movimento negro. Por outro lado, coloca-se a crença no mito da democracia racial e na ideia de que o Brasil teria superado a escravidão e o racismo por meio do processo de miscigenação que, por sua vez, nos teria livrado de problemas existentes apenas em outras paragens, tais como Estados Unidos ou a África do Sul”. (PACHECO; SILVA, 2007).

Fonte: PACHECO, J. Q.; SILVA, M. N. Introdução in ______;______(orgs). O negro na universidade : o direito à inclusão. Brasília : Fundação Cultural Palmares, 2007, p. 1 – 6

Tomando por base o texto de Pacheco e Silva, é correto afirmar que:

A) O racismo no Brasil é sutil e imperceptível;

B) A miscigenação eliminou o racismo nas relações sociais;

C) Estados Unidos e África do Sul são exemplos de tolerância racial e eliminação de preconceitos;

D) Os dados estatísticos desmentem a ideia de que no Brasil não existe racismo;

E) Políticas de Ações Afirmativas são desnecessárias no contexto brasileiro.

ALTERNATIVA CORRETA: D

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Sobre o Autor

Raphaele Godinho
Raphaele Godinho

Raphaele Godinho: Estudante de Relações Internacionais, coordenação do movimento Resgatando e Valorizando a Mulher, Three Dot Dash Global Teen Leader 2020 by We Are a Family Foundation.