Dados da Correção da Redação do ENEM 2013

Na última quarta-feira, dia 02 de abril, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou o acesso ao espelho dos textos corrigidos dos candidatos do ENEM 2013 e divulgou alguns dados da correção da redação, dados estes que nos dizem muito sobre o processo de avaliação do exame.

Rapidamente, o espelho, nada mais é, do que uma imagem escaneada da redação e uma tabela com as notas recebidas pelo candidato em cada uma das cinco competências. As notas atribuídas são as mesmas disponíveis no Guia do Participante e as menções, isto é, as explicações dadas as faixas de notas também são iguais as do documento citado.

Por meio deste espelho, o candidato pode ter uma ideia de como foi em cada competência e, portanto, no todo de seu texto, sabendo em qual aspecto pode melhorar. Porém, é sempre bom ter em mente que cada prova é uma prova e compará-las não ajuda em nada, já que os temas são diferentes.

Alguns leitores já nos procuraram com dúvidas acerca do que consta no espelho de suas redações e, a partir da próxima semana, responderemos estas questões na nossa coluna semanal, às quintas-feiras.

Voltando aos dados da correção da redação do ENEM 2013 divulgados pelo MEC, os quais podem ser lidos diretamente ao acessar o link http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20350, eles nos dizem muito acerca do processo avaliativo do exame.

Ao todo, foram corrigidos “5.049.248 textos, dos quais 481 tiveram nota mil. Em branco, foram 32.991 e outros 73.751, anulados. Assim, 106.742 redações tiveram nota zero”. O que chama a atenção neste trecho é o número de redações com nota máxima, isto é, com nota mil: apenas 481. Em um universo de mais de cinco milhões de textos, somente 481 obterem nota máxima é algo estranho, pois, estaticamente falando, esses dois dados (total de redações e redações com nota máxima) não são compatíveis.

Outro número preocupante é o de redações que foram corrigidas uma terceira vez: “2.496.754 redações (foram) para um terceiro corretor, o equivalente a 50%”. Este dado é muito alto, pois não é sinônimo de qualidade no processo de correção.

A terceira correção é o lugar das chamadas “redações limites”, isto é, daquelas redações que colocam os corretores em dúvida por serem complicadas, mais complexas do que a maioria e só. Quem já participou ou participa de bancas de vestibulares e/ou concursos sabe que não se pode levar uma redação à terceira correção por bobagem, por falta de atenção, por erros primários, por não estar atento à grade de correção; o número de terceiras correções deve ser mínimo e nunca chegar a 50% como aconteceu no ENEM 2013. Para se ter uma ideia, o ideal de terceiras correções, em grandes vestibulares como o da USP e o da UNICAMP é 7%, segundo as próprias instituições que, por sua vez, sempre buscam a queda deste percentual.

Tudo isso mostra que a correção da redação do ENEM precisa e deve ser aperfeiçoada, pois está claro que não houve afinação entre a proposta do exame de 2013 e as expectativas da banca elaboradora, visto que apenas 481 redações conseguiram a nota máxima. Justiça deve ser feita: lugar de redação limite é na terceira correção e lugar de redação excelente é na nota máxima. O corretor deve saber distinguir todas as faixas de notas e saber reconhecer uma redação merecedora da nota mil, no caso do ENEM.

Em sua publicação, o MEC enfatizou o nível de seus corretores e o treinamento dado a eles: “a edição de 2013 contou com 7.121 avaliadores, 51,9% deles com doutorado, mestrado ou especialização e os demais com graduação. Todos passaram por capacitação, em um total de 136 horas — 32 a mais em relação à edição anterior”. Já dissemos que os candidatos a corretores da redação do ENEM passam sim por um treinamento a distância, via internet e a correção ocorre do mesmo modo, via internet e não é como uma banca de vestibular que corrige junta, reunida em um mesmo espaço, onde as discrepâncias entre notas ficam mais evidentes, já que o presidente e o coordenador da banca são responsáveis por monitorar os números da correção (cota de cada corretor, redações nota máxima, anuladas, em branco, terceiras correções etc).

Do modo como a correção da redação do ENEM é realizada, com corretores espalhados e isolados pelo país, eles não têm como saber se algo está dando errado, pois podem supor que o mal desempenho dos candidatos seja de um ou dois lotes que eles corrigiram.

Faz-se necessária uma revisão da correção da redação do ENEM 2013. Proposta e expectativas da banca elaboradora devem ser compatíveis; tanto esta banca quanto a corretora deve estar afinada entre si e com a grade de correção, pois de nada adianta haver corretores que não entendem e não aplicam-na adequadamente.

O rigor e a justiça devem ser primordiais em uma banca de correção; o primeiro e o último texto devem ser corrigidos do mesmo modo para que nenhum candidato seja prejudicado. O vestibular não é algo justo, mas, mesmo assim, deve haver justiça em sua correção.

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!

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