Estudo de Genética nas Novelas da Globo

Tudo bem amigo(a)? Bom contar com sua companhia em mais este texto do InfoEnem, o segundo da série de textos da Biologia. Sugiro a você a leitura/releitura do Texto 01 para relembrar alguns conceitos da genética que serão importantes nessa leitura.

CASO 1: Recentemente, na telenovela Bom Sucesso – produzida e exibida pela Rede Globo no período de 29/7/2019 a 24/1/2020, a personagem Gabriela sofreu um grave acidente, que a fez necessitar de uma transfusão sanguínea urgentemente. Entretanto, para o seu azar, ela apresentava um grupo sanguíneo muito raro – um tipo de sangue presente em apenas 11 famílias brasileiras – o que a colocou em uma luta contra o tempo atrás de um doador compatível.

https://gshow.globo.com/novelas/bom-sucesso/vem-por-ai/noticia/gabriela-diz-a-alice-que-esta-com-pressentimento-ruim.ghtml
Que tipo sanguíneo é esse, tão raro, a ponto de colocar em risco a vida da pessoa que o possui em caso de necessidade de transfusão?

CASO 2: Um casal entra em grave crise conjugal, por suspeita de adultério, quando nasce seu primeiro filho. Motivo: a criança tinha um tipo sanguíneo AB, enquanto seu pai era sangue O e a mãe sangue A. Entretanto, exames de DNA confirmam a paternidade do pai, sangue O. Como isso é possível?

Relembremos então os conceitos que nos ajudarão a encontrar a melhor explicação. Esse sistema sanguíneo se baseia na presença ou não de certas glicoproteínas que, quando presentes, ficam localizadas no glicocálice (extensão, “dobra” da membrana plasmática, situada externamente a ela) das Hemácias – também chamadas de Glóbulos Vermelhos ou Eritrócitos.

A presença ou não dessas glicoproteínas é determinada geneticamente, a princípio, por três tipos de genes alelos: IA, IB e i.

O alelo IA produz uma enzima capaz de catalisar a produção de uma glicoproteína do tipo-A a partir de uma substância denominada Antígeno H;

O alelo IB produz uma enzima capaz de catalisar a produção da glicoproteína do tipo-B também a partir do Antígeno H;

O alelo i não produz enzima, de maneira que não há reação de produção de uma glicoproteína.

Esses três genes combinam-se em pares, formando genótipos que determinarão o tipo sanguíneo do indivíduo.

Importante destacar que existe uma relação de dominância entre esses genes, representada da seguinte forma: IA = IB > i. Isso quer dizer que entre os alelos IA e IB não existe dominância – os dois, quando reunidos, manifestariam-se simultaneamente na célula, o que é conhecido como codominância – mas qualquer um deles, quando acompanhado pelo alelo i, prevalecem e se manifestam “sozinhos”. Conclusão: indivíduos IA i produzirão a glicoproteína do tipo A da mesma forma que IB i produzirão a glicoproteína do tipo B.

Você deve estar se perguntando: Ok, legal isso daí, mas porque tenho que estudar isso, qual a importância disso no meu dia a dia? Existem dois argumentos básicos para isso:

1º) Existe um conjunto de doenças conhecido como DHRN (Doença Hemolítica do Recém-Nascido) onde a mãe “estranha” o sangue do feto e passa a produzir anticorpos para destruí-lo. No Ensino Médio estudamos essa doença relacionada com outro sistema sanguíneo, o sistema Rh, mas é importante saber que existe uma doença similar para o sistema ABO;

2º) Problemas relacionados à transfusão sanguínea. Ocorre quando o indivíduo recebe sangue com uma glicoproteína que ele não “conhece”, ele não possui. Com isso ele passa a fabricar uma grande quantidade de anticorpos (ou aglutininas) contra essa glicoproteína (nesse caso pode ser chamada de aglutinogênio ou aglutinógeno), causando hemaglutinação ou aglutinação do sangue, que pode ser fatal.

No que diz respeito às aglutininas, vale ressaltar que a aglutinina anti-a e anti-b, já estão presentes – em baixas quantidades – nos indivíduos que não possuem o antígeno correspondente, independentemente de estímulo prévio. Acredita-se que estes anticorpos sejam fabricados em resposta a proteínas produzidas por microrganismos presentes em nosso trato digestório que nos invadem logo após o nascimento e, até mesmo, por substâncias químicas provenientes do ambiente, que seria muito parecidas com os aglutinógenos do tipo-A e do tipo-B.

Sendo assim, o indivíduo cujo tipo sanguíneo seja A apresentará em suas hemácias a glicoproteína do tipo A apenas e, por isso, estranhará se receber sangue que possuir a glicoproteína do tipo B em caso de transfusão.

O indivíduo cujo tipo sanguíneo seja B apresentará em suas hemácias a glicoproteína do tipo B apenas e, por isso, estranhará se receber sangue que apresentar a glicoproteína do tipo A em caso de transfusão. E assim por diante.

Logo abaixo, uma tabela que resume nosso raciocínio até aqui:

Baseado no que foi exposto até aqui, fica realmente difícil entender o que aconteceu com a família do caso 2. Um indivíduo para ser sangue do tipo AB precisa apresentar um par de alelos (genótipo) IAIB, sendo que cada um viria de um dos pais. Como isso seria possível neste caso em que a mãe é sangue A e apresenta como possibilidade de genótipo para essa característica apenas IAI ou  IAi e o pai é – aparentemente – sangue O e, portanto, portador de genótipo do tipo ii? Ele não apresentaria o gene Ipara enviar para tal filho, de maneira que a primeira suspeita seria de traição. Entretanto, como dito anteriormente, o teste de paternidade deu positivo para o membro do casal. Então, como explicar isso? A resposta mais plausível é de que o pai, na verdade, é falso O!

Como isso ocorre?

Para entendermos isso, precisamos voltar no processo de produção das glicoproteínas que caracteriza esse sistema sanguíneo. E detalharmos o processo.

O processo começa com a ativação do gene H, localizado no cromossomo 19, para a produção de uma enzima (proteína catalisadora) denominada α-2-L-fucosiltransferase. Essa enzima catalisará a produção do antígeno H, que será a molécula base para a produção das glicoproteínas do tipo A e do tipo B.

Para essa produção serão utilizadas enzimas do tipo glicosiltransferases, que promoverão a conversão, a “transformação” do Antígeno H nos aglutinógenos tipo-A e tipo-B. São dois tipos de glicosiltransferases: a Glicosiltransferase A, Produto final da atividade do Gene IA e a Glicosiltransferase B, produto final do gene IB. Assim temos:

Tudo bem até aqui? Não se preocupe com o nome das enzimas, o importante é entender o processo de maneira geral, ok?

Agora me responda uma questão: e se o indivíduo for hh, o que acontecerá com essas reações?

Indivíduos hh não produzirão a enzima responsável pela produção do antígeno H e sem esse antígeno não haverá a produção dos aglutinógenos do tipo A e do tipo B, mesmo que o indivíduo tenha os genes IA e IB respectivamente.

Conclusão: indivíduos hh não produzem antígeno tipo-A e nem o antígeno tipo-B, mesmo que possuam os genes Iou IB, e por isso são chamados de falsos O. Essas pessoas são incompatíveis com todos os doadores que não sejam também falsos O. Isso acontece porque, como já foi visto anteriormente, o falso O não possui o Antígeno H e por isso produz um anticorpo contra esse antígeno, denominado Anti-H. Assim, se ele receber qualquer sangue que tenha o Antígeno H, uma reação muito severa acontecerá contra ele.

E assim resolvemos os dois casos propostos no início do texto: Tanto a personagem Gabriela da novela “Bom Sucesso” quanto o homem do casal da situação 2 são indivíduos falsos O.

Uma em cada 250 mil pessoas no planeta possuem o fenótipo falso O, fenótipo esse identificado em Bombaim, Índia, no ano de 1952. A incidência desse fenótipo é maior nas áreas rurais do Sul e Oeste indianos: 1/4.500 e 1/13.000, respectivamente. Motivo: grande frequência de casamentos consanguíneos na região.

Para se ter uma ideia do quão raro é esse sangue, um trabalho publicado em 2016 cita uma divulgação da OMS (Organização Mundial de Saúde) que apresenta uma lista de 87 doadores catalogados no mundo. No Brasil, apenas onze famílias apresentam indivíduos com esse fenótipo.

E foi um desses brasileiros, cearense, que doou sangue para uma criança de um ano e dois meses de Medelín (Colômbia), que sofria de uma grave hemorragia digestiva e precisava urgentemente de uma transfusão sanguínea. O fato ocorreu em Julho de 2017, tornando o Ceará, segundo a OPAS (Organização Pan Americana da Saúde), o primeiro estado brasileiro a enviar internacionalmente sangue raro para doação.

QUESTÕES DESAFIO

(Enem 2014) Antes de técnicas modernas de determinação de paternidade por exame de DNA, o sistema de determinação sanguínea ABO foi amplamente utilizado como ferramenta para excluir possíveis pais. Embora restrito à análise fenotípica, era possível concluir a exclusão de genótipos também. Considere que uma mulher teve um filo cuja paternidade estava sendo contestada. A análise do sangue revelou que ela era tipo sanguíneo AB e o filho, tipo sanguíneo B. O genótipo do homem, pelo sistema ABO, que exclui a possibilidade de paternidade desse filho é

a) IAIA                         

b) IAi                         

c) IBIB                         

d) IBi                              

e) ii

Resposta: Alternativa A.

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