Expectativas da Redação do 1º Simulado Enem

No último final de semana, o portal InfoEnem realizou seu primeiro simulado do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem – para todos os seus leitores e, neste texto, abordaremos as expectativas que a banca elaboradora da prova possui acerca da redação.

Ao elaborar uma prova de produção textual, a banca delimita as expectativas, ou seja, aquilo que ela espera que o candidato escreva; isto é publicado logo depois da aplicação do vestibular para que todos tenham uma ideia do que a banca elaboradora esperava e já saber mais ou menos acerca de seu desempenho.

As expectativas da redação são o alicerce para a elaboração da grade de correção que, por sua vez, será usada pela banca corretora para, obviamente, corrigir as redações de todos os candidatos.

Nunca vimos a equipe responsável pelo Enem divulgar as expectativas da prova de redação, mas demais vestibulares, juntamente com o gabarito, se for o caso ou de modo isolado (depende do modelo de prova usado) sempre divulgam as expectativas da produção textual que, por sua vez, não detalha os pormenores da grade de correção e sim, apenas, traça o panorama geral do que a banca elaboradora esperava dos candidatos.

No nosso caso, por tratar-se de um simulado, daremos este panorama geral, mas também detalharemos competência por competência as expectativas da redação, cujo tema foi “O respeito aos benefícios oferecidos aos idosos e deficientes físicos brasileiros”.

Panorama Geral

O enunciado da prova de redação do simulado do InfoEnem é semelhante ao enunciado padrão do Enem; ele traz todas as informações necessárias, além do tema, acerca do que e como o candidato deve escrever sua dissertação-argumentativa. Vejamos:

Com base na leitura dos seguintes textos motivadores e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em norma culta escrita da língua portuguesa sobre o tema: “O respeito aos benefícios oferecidos aos idosos e deficientes físicos brasileiros”. Apresente uma proposta de intervenção e/ou conscientização social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defender o seu ponto de vista.”

O enunciado orienta que o candidato aproveite os textos motivadores da coletânea e nos seus conhecimento prévios de mundo para redigir uma dissertação-argumentativa (tipo textual requerido – 2ª competência) em norma culta da língua portuguesa (1ª competência) sobre o tema dado. Além disso, o enunciado nos moldes do Enem, ao usar o imperativo, ordena que o candidato apresente uma proposta de intervenção e/ou de conscientização social (5ª competência) que, por sua vez, respeite os direitos humanos. Ainda usando o imperativo, há a ordem para selecionar, organizar, e relacionar, de maneira coerente e coesa, argumentos e fatos para defender o ponto de vista (3ª e 4ª competências).

Após ler estas instruções e a coletânea de textos motivadores, espera-se que o candidato perceba que mesmo com leis que assegurem atendimento e condições prioritárias aos deficientes físicos e aos idosos e apesar das inúmeras campanhas de conscientização, estes ainda enfrentam desrespeito aos seus direitos no Brasil e que algo efetivo deve ser feito para que isso acabe.

Obviamente existem vários tipos, infelizmente, de desrespeito aos idosos e aos deficientes físicos, mas um dos mais notórios e abordados pela imprensa é a ocupação, por pessoas jovens e sem deficiência física, das vagas especiais em estacionamentos e vias públicas. O primeiro texto da coletânea traz, justamente, a lei que tipifica como infração gravíssima de trânsito o estacionar errôneo em vagas especiais para deficientes físicos e idosos, sob pena de multa e suspensão por seis meses da Carteira Nacional de Habilitação a fim de que esse tipo de ocorrência diminua.

Em relação a este primeiro texto motivador, o candidato poderia elaborar as seguintes questões: (1) a lei tem como objetivo, somente, punir, “colocar medo” nos infratores para diminuir estas ocorrências ou também almeja conscientizar os motoristas? (2) esta lei “pegará”, já que para a sua aplicação há a necessidade de uma grande fiscalização e, assim, surtirá efeito? (3) este é o único meio de coibir o desrespeito aos idosos e aos deficientes físicos? etc.

O segundo texto da coletânea é um trecho de uma notícia que narra uma briga entre um delegado de polícia (pasmem!) e um cadeirante por causa de uma vaga no estacionamento; o primeiro, apesar do cargo, estacionou em uma vaga reservada para deficientes físicos e, assim, gerou uma discussão com um senhor deficiente físico. O terceiro texto da coletânea, uma peça de uma campanha social a favor do direito às vagas especiais, vem de encontro ao segundo texto motivador, já que muitas pessoas, ao usarem equivocadamente e propositalmente as vagas reservadas justificam-se dizendo que ficaram ali “apenas um minutinho”, que o que foram fazer era rápido e, por isso, estacionaram em uma vaga especial, pois acharam que não estavam fazendo mal algum.

Porém, como diz a campanha, as vagas especiais não são vagas comuns nem por um minuto e, em relação a este texto motivador, o candidato poderia associar o famoso “jeitinho brasileiro”, já que, infelizmente, é comum ouvirmos este tipo de desculpas das pessoas: “é só um minutinho”; “é rapidinho”; “só uma perguntinha…” (numa fila de banco, por exemplo etc).

Outro argumento muito usado por pessoas jovens, em relação aos idosos, é que estes deveriam usar o transporte público e ir a bancos e lotéricas fora do horário de pico, já que são aposentados e têm o dia todo para isso. Porém, as pessoas se esquecem (ou fingem se esquecer) de que todos nós, inclusive os idosos, temos direito de sairmos de casa a hora em que bem quisermos e entendermos; onde está o direito de ir e vir? Será estabelecido um toque de recolher para os idosos?

O quarto e quinto textos motivadores abordam, especificamente, os idosos brasileiros. Um novo símbolo da terceira idade foi pedido e, assim, feito; sai o desenho de uma pessoa arcada, usando bengala e entra em cena o desenho de uma pessoa ao lado da escrita “+60” e a pergunta feita para o candidato é “como você se vê aos 60 anos?”. A intenção da banca elaboradora com essa questão é fazer com que o candidato reflita sobre seu futuro com mais de 60 anos, o que vem de encontro com o último texto motivador que, por sua vez, aborda o aumento da expectativa de vida do brasileiro.

Alguns jovens e adultos abaixo dos 60 anos se esquecem de que, um dia, chegarão a terceira idade ao serem preconceituosos com os idosos. O quinto texto motivador nos lembra que o aumento da expectativa de vida do brasileiro e a existência de deficiências das mais diversas ordens gera a necessidade da ampliação do acesso às políticas públicas e aos direitos civis e isso é um desafio para o Governo e para a sociedade como um todo e é este texto motivador que dá brecha ao candidato para formular a proposta de intervenção social.

Competência Nº1: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa

Toda banca elaboradora de uma prova de redação espera que os candidatos escrevam seus textos com total domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa. O Enem, como já é sabido, em cada competência avaliadora da grade de correção, estabelece níveis de pontuação, mas sempre a expectativa da banca é a de que todos os candidatos demonstrem excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa e de escolha de registro. Desvios gramaticais ou de convenções da escrita serão aceitos apenas em casos excepcionais e quando não são reincidentes.

Competência Nº2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa

Nesta competência, espera-se que o candidato escreva uma dissertação-argumentativa, a fim de cumprir com o tipo textual requerido. Em resumo, o texto dissertativo-argumentativo busca, de maneira impessoal, defender uma tese, acerca do tema, por meio da argumentação e, no caso específico do Enem, propor uma proposta de intervenção social com o objetivo de convencer o leitor. Assim, o candidato não deve fugir do tema e aplicar conceitos de várias áreas do conhecimento (neste caso, política, sociologia, biologia, história etc). Há muitos caminhos possíveis se o candidato atender ao tema.

Competência Nº3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista

Na terceira competência, o objetivo é a coerência interna e externa: relação de sentido entre as partes do texto, precisão vocabular e progressão temática. Espera-se que o candidato apresente informações, fatos, opiniões e argumentos relacionados ao tema proposto de forma consistente e organizada, configurando autoria e autonomia em defesa do seu ponto de vista.

Competência Nº4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação

Na quarta competência, a articulação e a coesão são os pontos chave: paragrafação, estruturação dos períodos e referenciação.

Competência Nº5: Elaborar proposta de intervenção social para o problema abordado, respeitando os direitos humanos

O Enem tem como característica e competência obrigatória a elaboração de uma proposta de intervenção social para o tema abordado, respeitando os direitos humanos. O candidato que não a apresentar terá uma nota zero nesta quinta competência, o que prejudicará muito a redação de uma maneira global.

Na proposta de redação do simulado, “O respeito aos benefícios oferecidos aos idosos e deficientes físicos brasileiros”, a pergunta para inspirar a elaboração da proposta de intervenção social deveria ter sido: “O que devemos fazer, efetivamente, para que o respeito aos benefícios aos idosos e deficientes físicos brasileiros exista?”. Uma outra reflexão fundamental é: “Como garantir os direitos dos idosos e dos deficientes físicos?”. Porque leis existem, mas nem sempre são cumpridas…

Algumas sugestões de solução possíveis: aumento na realização de campanhas comunitárias a favor dos direitos dos idosos e dos deficientes físicos; desenvolvimento de projetos sociais (em escolas, universidades, empresas, dentre outros lugares) que coloquem jovens e pessoas sem deficiência no lugar de idosos e de deficientes físicos nas tarefas do dia a dia, para que sintam na pele as dificuldades enfrentadas por eles; aumento na fiscalização em estacionamentos e nas vias públicas a fim de coibir o estacionamento em vagas reservadas e especiais; a verdadeira inclusão de idosos e deficientes físicos na sociedade, no mercado de trabalho e na educação; melhoria dos acessos fáceis – rampas, esteiras, guias rebaixadas etc – . Obviamente, muitas outras opções são possíveis.

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!

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