Luta de classes e fuga das galinhas: encontro entre teoria e cinema

Diferente do que se imagina, diversas animações são produzidas com o intuito de não apenas entreter jovens e crianças, mas suscitar inquietações acerca da realidade que os cerca. Esse é o caso do famoso, e ainda atual, filme A Fuga das Galinhas, dirigido por Peter Lord e Nick Park.

O desenrolar da trama nos apresenta uma estrutura narrativa progressivamente complexa, começando na simplicidade e leveza de uma animação comum e avançando em direção a uma análise metafórica das relações entre dominantes e dominados, entre proprietários e despossuídos dos meios de produção.

Imagem reproduzida do site: https://www.planocritico.com/critica-a-fuga-das-galinhas/

O filme

Em uma granja inglesa da década de 1950, há um grande acontecimento disruptivo em curso. As galinhas, sob a liderança de Ginger, uma galinha com inspiração revolucionária, se organizam pela causa da liberdade de seu grupo (ou, mais precisamente, classe). O cenário que antecede esse processo é marcado pela monotonia da vida dessas aves, sua incessante exploração pelos donos do galinheiro e sua passagem apenas de ida à panela ao fim da vida. O trabalho desgastante e a necessidade constante de produção visando a geração de mercadoria – os ovos – e, consequentemente, lucro; eram acompanhados por condições de existência precárias, fatores estes que, acumulados, produziram descontentamento e indignação às galinhas, conduzindo-as à adesão às ideias revolucionárias de Ginger.

Ademais, há outro fator de conscientização das galinhas acerca de sua condição degradante e subjugada: a chegada de Rocky, um galo vindo dos Estados Unidos e que “voou” por cima da granja. Sua chegada produz um efeito de iluminação ao que estava obscurecido e naturalizado pelas galinhas, ou seja, sua exploração e alienação. O galo, supostamente voador, em seu papel de estrangeiro, expande os horizontes de possibilidades de se viver e se colocar no mundo que elas conheciam; aumentando, assim, a urgência de fugir e se libertar.

Rocky ajuda Ginger na produção do plano de fuga e, junto com as outras galinhas, correm contra o relógio contra a dona da fazenda, Sra. Tweedy, a qual, insatisfeita com a produção de ovos, comprou fornos para fazer tortas recheadas com galinhas.

A aproximação entre o filme e a teoria se dá pelos seguintes fatores:

  1. A exploração vivida pelas galinhas representa a exploração que o capital exerce sobre o proletariado. Em ambos os casos, a classe trabalhadora, seja de homens ou aves, vende sua força de trabalho, pois não possui os meios de produção; é alienada de seu trabalho e de si mesma, uma vez que é apartada dos produtos que produziu; e é marcada pela apropriação da mais-valia pela classe dominante, isto é, uma parte do trabalho realizado e do tempo dedicado àquela atividade e, consequentemente, do valor produzido, não são pagos à classe trabalhadora, mas furtados sob a forma de lucro pelos burgueses.
  2. A classe dominante, no filme representada pelos Sra. e Sr. Tweedy, é a proprietária dos meios de produção. A diferença entre detentores e não detentores é o fundamento da exploração que sustenta a assimétrica relação de poder entre galinhas e pessoas.
  3. A substituição dos trabalhadores por máquinas. Assim como os trabalhadores são substituídos por máquinas, com o intuito de aumentar a produtividade e lucro; o trabalho das galinhas – de botar ovos – é substituído pelo trabalho de máquinas que fabricam tortas, as quais, diferente das aves e da força de trabalho viva, não diminuem a produção de acordo com possíveis problemas físicos ou psicossomáticos.

Uma organização social baseada e sustentada pela propriedade privada e divisão da sociedade em classes, como ocorre no modo de produção capitalista e na granja da do filme, é marcada, necessariamente, pela luta de classes, cujas motivações decorrem dos interesses contrastantes entre as classes, decorrentes de sua posição na hierarquia social e na divisão social do trabalho.

Apesar de parecer, em especial aos olhares descuidados, que o filme é uma simples animação infantil e escassa de profundidade, a trama se mostra o contrário ao evidenciar as contradições que atravessam as relações de trabalho da sociedade capitalista e se aproximar da teoria marxista da luta de classes. Teoria esta que, para Marx e Engels, é o motor da história e é, também, o que caracteriza e marca a história das sociedades.

Questão

(ENEM 2021) Ao mesmo tempo, graças às amplas possibilidades que tive de observar a classe média, vossa adversária, rapidamente concluí que vós tendes razão, inteira razão, em não esperar dela qualquer ajuda. Seus interesses são diametralmente opostos aos vossos, mesmo que ela procure incessantemente afirmar o contrário e vos queira persuadir que sente a maior simpatia por vossa sorte. Mas seus atos desmentem suas palavras.

ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010.

No texto, o autor apresenta delineamentos éticos que correspondem ao(s)

a) Conceito de luta de classes.

b) Alicerce da ideia de mais-valia.

c) Fundamentos do método científico. 

d) Paradigmas do processo indagativo. 

e) Domínios do fetichismo da mercadoria.

A alternativa correta é a letra C.

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Sobre o Autor

Brenda Buzzo
Brenda Buzzo

Estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Possui formação técnica na área de alimentos pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Campus São Roque. Tem experiência em pesquisa na área de sociologia da alimentação e possui interesse nas áreas de pensamento social, estudos de gênero e sociologia política.