O feminismo e suas reivindicações à vida pública

Primeiro é necessário que se tenha em mente que o gênero feminino passou – e ainda lida com as consequências – por um processo histórico de silenciamento, marginalização e dominação masculina, o qual foi justificado de diferentes maneiras, como por exemplo a biológica, a qual alega que as mulheres são mais fracas, sensíveis e inferiores, por isso deveriam ficar restritas ao ambiente doméstico e obedecer às normas estabelecidas pelo homem responsável, tal como o pai ou o marido.

No entanto, ao se fazer uma retomada histórica, alguns estudiosos afirmam que a desigualdade sexual, tal como se conhece hoje, é posterior ao advento da propriedade privada, pois, durante o início da história da humanidade, a divisão sexual do trabalho apresentava-se de maneira complementar e não hierárquica, uma vez que os homens poderiam ser responsáveis por caçar animais selvagens e as mulheres, por colher legumes e frutas – ou as atividades poderiam se alterar, dependendo do grupo étnico. Desta forma, as mulheres possuíam valor à comunidade e eram vistas como membros produtivos essenciais, responsáveis por manter as atividades de subsistência juntamente com os homens. Todavia, com o início da propriedade privada esse cenário teria se alterado, sendo substituído pela feminização das tarefas domésticas (agora entendidas como irrelevantes e destinadas apenas às mulheres) e pela masculinização das tarefas alheias ao ambiente privado.

Ao longo do desenvolvimento da história, essa realidade de cooperação entre homens e mulheres à sobrevivência foi sendo cada vez mais abolida e, nos séculos XII a IX a. C., na Grécia Antiga já havia uma hierarquia rígida, na qual os homens (com exceção dos escravos) eram destinados à vida pública, às atividades políticas e filosóficas, enquanto as mulheres não possuíam direitos jurídicos, não recebiam educação e eram propriedades dos patriarcas, sendo limitadas apenas ao ambiente privado/doméstico. Essa distinção entre público e privado se iniciou na Grécia e é responsável por trazer ao ocidente diversos elementos da tradição política moderna.

O período que antecede o capitalismo industrial ainda é marcado pela separação praticamente totalitária das mulheres dentro de casa e dos homens como provedores. Entretanto, com o início da industrialização, diversas mulheres são alocadas no ambiente fabril, o que em teoria deveria diminuir a dependência econômica delas para com os homens, mas não é o que ocorre, uma vez que os salários que elas recebem são significativamente inferiores aos salários masculinos e elas ainda não possuem direitos políticos ou sociais. Assim, a dominação masculina permanece nas duas esferas – privada e pública – o que perpetua uma profunda desigualdade de gênero, na qual as mulheres dependem economicamente dos homens em casa e, também, não conseguem transformar essa realidade pois não podem adentrar no âmbito político para conquistar direitos.

Conforme as lutas do movimento feminista desenrolavam e disseminavam-se, direitos foram sendo conquistados, tais como o sufrágio feminino – primeiro estabelecido pela Nova Zelândia em 1893 e pela Finlândia em 1906, posteriormente no Brasil em 1932, e em países como a Arábia Saudita apenas em 2011.

Figura reproduzida do site: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-direito-da-mulher-ao-voto.phtml

Com isso, as reivindicações foram se intensificando e, consequentemente, as mulheres foram ganhando espaço na política, em empregos e na sociedade como um todo. No entanto, por mais que não exista uma divisão sexual do trabalho de maneira formal, há inúmeros estigmas que circunscrevem as diferentes áreas de labor, estabelecendo uma divisão sexual no âmbito cultural, o que reflete em uma divisão real – como por exemplo a atribuição de tarefas domésticas e de criação dos filhos exclusivamente às mulheres.

No século XXI, a conquista de leis de proteção contra a violência, instrumentos legais de reconhecimento da violência doméstica e familiar de cunho estrutural pelo Estado (como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015) no Brasil como um tipo específico de homicídio), foram grandes marcos da luta feminista na América Latina, assim como a legalização do aborto na Argentina (dezembro de 2020). Com todas essas transformações o movimento feminista transforma a dinâmica das instituições sociais, como a família e o Estado, as quais operavam de maneira opressora no passado.

“Nem uma única mulher morta por aborto clandestino”

Figura reproduzida do site: https://www.cartacapital.com.br/mundo/argentina-retoma-luta-pela-legalizacao-do-aborto/

Questão

O feminismo teve uma relação direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano e sociológico. Ele questionou a clássica distinção entre o “dentro” e o “fora”, o “privado” e o “público”. O slogan do feminismo era: “o pessoal é político”. Ele abriu, portanto, para a contestação política, arenas inteiramente novas: a família, a sexualidade, a divisão doméstica do trabalho etc.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2011 (adaptado).

O movimento descrito no texto contribui para o processo de transformação das relações humanas, na medida em que sua atuação

a) Subverte os direitos de determinadas parcelas da sociedade.

b) Abala a relação da classe dominante com o Estado.

c) Constrói a segregação dos segmentos populares.

d) Limita os mecanismos de inclusão das minorias.

e) Redefine a dinâmica das instituições sociais.

A alternativa correta é a letra E.

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