Redação no Enem: Exercício de Argumentação

No texto de hoje, gostaríamos de sugerir um exercício que tem como objetivo fazer com que você, leitor, reflita a respeito da argumentação envolvida no debate de um tema polêmico. Como no Enem a prova de redação requer a escrita de uma dissertação-argumentativa acerca de um tema de cunho social no âmbito brasileiro, nada melhor do que, ao longo dos estudos, exercitar a capacidade de argumentar.

Quando falamos em algo que cria polêmica, normalmente há aqueles que são contra, aqueles que são a favor e aqueles que buscam uma espécie de meio termo. Independente da posição tomada, esta deve estar embasada em argumentos fortes, isto é, opiniões difíceis de serem derrubadas. Assim, ao elaborarmos a argumentação em nossas redações (seja as do Enem, de demais vestibulares e de concursos públicos) devemos pensar nos contra-argumentos que podem abalá-la.

E isto é importante não apenas para escrever dissertações-argumentativas, mas para escrever gêneros da ordem do argumentar (artigos opinativos, resenhas, editoriais etc) e para conviver, circulando pelas várias esferas sociais (do trabalho, escolar, científica, etc), já que todos os dias devemos negociar, debater e discutir determinados assuntos com nossos chefes, professores, pais, amigos dentre outras pessoas.

Para ajudá-los neste momento de reflexão acerca quais argumentos usar, como utilizá-los, de que modo embasá-los etc., resolvemos propor um exercício cujo principal material é o documentário brasileiro O Riso dos Outros, dirigido pelo cineasta Pedro Arantes, lançado em 2012 e financiado pela TV Câmara. O filme está disponível no YouTube por meio do endereço https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54 ou clicando na figura abaixo, umas das primeiras que surgem no vídeo:

 

 

O Riso dos Outros propõe um debate sobre o humor e discute se existe um limite para o humor por meio de depoimentos de humoristas stand-up (oriundos dos Estados Unidos – stand-up comedy – , trata-se de um espetáculo ou show de humor no qual o comediante apresenta-se em pé, sozinho, sem recursos cenográficos, sonoros e de figurino) e pessoas representantes de causas sociais, como por exemplo, as homoafetivas, feministas e o movimento negro.

O humor sempre possuiu uma certa relevância na sociedade e,atualmente, com o advento da internet e dos sites de compartilhamento de vídeos, como o YouTube, e com a popularização da comédia stand-up, surgiu a discussão se deve haver ou não limites para o humor, já que humoristas têm sido alvos de processos judiciais movidos por pessoas físicas e/ou entidades que sentiram-se ofendidas por alguma piada.

Podemos citar o exemplo de Rafinha Bastos que, dentre tantos processos, um dos mais citados pelas mídias foi o promovido pela cantora Wanessa Camargo e seu marido devido a uma piada que este fez em relação a ela e ao seu bebê em um programa televisivo em 2011.

Os comediantes entrevistados por Pedro Arantes são o próprio Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Maurício Meirelles, Fernando Caruso, Marcela Leal, Nanny People, Laerte Coutinho, dentre outros; os representantes das causas sociais ouvidos foram Jean Wyllys e representantes dos movimentos feministas e da causa negra. As entrevistas dividem espaço com trechos de ­stand-ups dos humoristas entrevistados e com cenas de protesto contra essas piadas, como por exemplo, do movimento feminista em frente a um bar que apresenta shows de stand-up.

O intuito de assistir a este documentário é o de refletir acerca do tema e a respeito dos argumentos dos humoristas e dos representantes de causas sociais. “É só uma piada”, objetivando o riso da plateia, justifica a brincadeira, mesmo ela podendo representar discriminação e humilhação para alguém ou é, realmente, apenas uma piada? O público é cúmplice deste humorista ou este apenas expressa valores presentes na sociedade? Por que rimos deste tipo de piada? Qual é o limite entre a liberdade de expressão e o preconceito? O politicamente correto é necessário ou é um tipo de censura?

O papel da plateia em um show de comédia é fundamental. O público é cúmplice do humorista e da piada? É pouco exigente? Se não fosse o público rindo, o comediante não estaria ali? Afinal, por que rimos de uma piada?

Rimos por que concordamos com a piada ou pelo menos com a crítica implícita nela? Sim, porque há piadas que, se contextualizadas, fazem sentido e se revelam verdadeiras críticas sociais, porém, vale tudo para provocar o riso? A piada reflete o que a sociedade pensa ou propaga preconceitos?

“Toda piada tem um alvo. O alvo pode ser um discurso, um objeto, uma etnia, um país ou pode ser uma pessoa com nome e rosto conhecidos” (Danilo Gentili). O alvo da maioria das piadas é a minoria? Se sim, por quê? Seria mais fácil atacar o oprimido do que o opressor?

“A justiça está proibindo falar, a justiça está obrigando a pagar indenização. A censura existe e ela é oficializada no Brasil, só não tem esse nome” (Alyson Vilela, comediante).

“A liberdade de expressão, como todas as liberdades, tem limites. A minha liberdade se encerra onde começa o direito do outro, o reconhecimento do outro” (Jean Wyllys, deputado federal).

Vocês concordam com estas afirmações? Os comediantes têm o direito de fazer piada e os ofendidos de não gostarem, de processarem, ou isso já é demais? O politicamente correto é uma censura ou um policiamento contra a propagação de preconceitos? Quem se sente mal, é careta?

“É só uma piada, não me processem” (Rafinha Bastos).

A intenção não é apenas verificar se vocês, leitores, gostam ou não de uma determinada abordagem humorística, quem concorda ou discorda de uma piada, quem se sente ofendido ou não, mas sim criar uma prática transformada de recepção –“Por que eu gosto ou não desta piada?” “Por que concordo ou discordo deste humorista?” “Por que me ofendo ou não?”.

Assistam ao documentário de maneira crítica e reflexiva. Juntem amigos e familiares para assistirem juntos e, ao término, debatam a questão, sempre tendo em mente os argumentos utilizados pelas pessoas entrevistadas e as suas respectivas posições.

Após o debate, escrevam uma dissertação-argumentativa sobre os limites do humor e levem para suas professoras de redação ou, para quem não frequenta a escola ou um cursinho preparatório para o Enem, dê sua redação para um amigo ou familiar ler e veja o que ele acha, se seus argumentos estão bem embasados ou não e se eles o convencem ou não, já que o objetivo de uma dissertação-argumentativa é convencer o leitor.

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!

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