Redação do Enem: Impessoalidade e Subjetividade O ENEM, assim como outras provas oficiais como os vestibulares da USP e da UNESP, aplica em sua avaliação de produção escrita a redação de um texto dissertativo – argumentativo, o qual é um dos mais presentes objetos de ensino nas escolas brasileiras (por vezes majoritariamente, criando defasagem em relação ao processo de ensino-aprendizagem dos mais diversos gêneros que circulam nas esferas de atividade humana, nas práticas sociais de língua e linguagem), sendo apresentado aos alunos, desde o início, como um texto que deve ser escrito de modo formal, objetivo e impessoal e é aqui que muitos alunos, com todo o direito, fazem os seguintes questionamentos: se na dissertação – argumentativa devo opinar e mostrar meu ponto de vista sobre o tema da proposta, argumentando a fim de convencer o leitor, por que não posso escrever em 1ª pessoa do singular se a opinião é minha?

Podemos afirmar, com toda certeza, que esta é uma das principais e uma das primeiras perguntas que os alunos fazem ao professor (e a si mesmos) quando começam a ter contato com este tipo de texto; por que devemos ser impessoais na dissertação – argumentativa? A tensão entre a impessoalidade e a subjetividade é muito forte no momento de se escrever este tipo de texto tanto na escola quanto em uma prova oficial como o ENEM e é legítima a preocupação dos estudantes, já que a cobrança por se redigir um texto que atenda às estruturas do texto dissertativo – argumentativo (segunda competência do ENEM) é feita desde o início do Ensino Médio, às vezes até antes, estressando muito os candidatos.

Primeiramente, devemos analisar as propostas de redação, pois há aquelas em que é obrigatório e/ou possível, indicado, que se estabeleça relações entre o texto a ser escrito e os da coletânea, já que a linguagem (escrita e oral) é essencialmente dialógica  isto é, todas as vezes que escrevemos ou falamos, relacionamos nossos enunciados a outros que já lemos ou ouvimos e, assim, tratamos de determinado assunto sob diferentes formas, ótica etc. O ENEM pede isso ao candidato, mas de um outro modo, já que afirma em seu Guia do Participante – A Redação no ENEM 2012 que o candidato não deve copiar trechos da coletânea por ela ser inspiradora, ou seja, ela deve motivar o autor a relacionar o que já sabe do tema em sua redação, dialogando com os enunciados que já conhece, já que a banca examinadora pressupõe que os candidatos conheçam, pelo menos algo, sobre o tema abordado na prova.

Porém, apesar disso, mesmo as propostas que permitem o uso da coletânea levam o aluno a escrever a dissertação – argumentativa de modo impessoal, levando-o a um processo de dessubjetivação (AMORIM, 2001 apud VIDON, 2012), isto é, “a um apagamento de marcas subjetivas tanto do eu quanto do outro dialógicos constitutivos desse gênero” (VIDON, 2012, p.423).

Historicamente, a dissertação – argumentativa tem como característica ser um texto objetivo, impessoal, no qual o autor distancia-se do leitor e de si mesmo, já que a máxima de que a subjetividade compromete a defesa de um ponto de vista porque é menos confiável ainda prevalece. Obviamente que não conseguimos ser impessoais o tempo todo em um texto, já que escrevemos por uma razão e com um objetivo, os quais mostramos, por vezes, em um questionamento colocado, na escolha lexical, no ponto de vista (expressão de juízo de valor, algo muito autoral), na conclusão e, no caso do ENEM, inclusive, na proposta de intervenção social (quinta competência) e, assim, a tensão entre a impessoalidade e a subjetividade deve ser equilibrada pelo candidato no momento da produção escrita.

Professores orientam os alunos a escreverem de maneira distante, impessoal, já que o foco é nas ideias contidas no texto e não no seu autor. Assim, expressões como “é fato”, “é óbvio”, “é notório”, “pensa-se”, “afirma-se”, “deve-se” ou “devemos”, “conclue-se”, “por fim” dentre tantas outras são valorizadas quando trata-se da dissertação – argumentativa, pois possuem um “tom racionalista do discurso argumentativo” (VIDON, 2012, p.425) que visa um leitor universal que deve ser convencido por argumentos coerentes interna e externamente. Por isso não se deve pressupor que o leitor conheça a proposta, a coletânea e o tema que está sendo abordado.

Assim, o autor desse tipo textual foi sendo configurado, ao longo do tempo, por um autor culto e objetivo, mas sendo a autoria algo pessoal, singular e da ordem do estilo discursivamente falando, porém a realidade vista na maioria dos vestibulares e provas oficiais não é assim, inclusive no ENEM, que pede um autor impessoal, já que requer uma dissertação – argumentativa de seus candidatos.

Por fim, para atender às expectativas da banca avaliadora do ENEM, o candidato deve escrever de modo impessoal, objetivo e culto a fim de convencer o seu leitor acerca do seu ponto de vista sem “achismos”, sem generalizações e sem sua subjetividade explícita, mas sim implícita, já que quando escrevemos possuímos intenções e juízos de valor que, neste caso, estarão presente nos detalhes, na eterna tensão entre a impessoalidade e a subjetividade que, infelizmente, não acabará na universidade, nos trabalhos, resenhas, resumos e monografias que serão produzidos (usando citações como foram feitas e referindo-se às obras estudadas como está abaixo), em qualquer curso da graduação, das humanas, exatas, biológicas e tecnológicas. Neste espaço, a interlocução é permitida, pois escreve-se para um público específico (e querido), mas este texto foi escrito de modo impessoal para servir de exemplo, mas a opinião, o juízo de valor está aí; basta ler com atenção.

Até a próxima semana!

Referência Bibliográfica

VIDON, L. N. Autoria em redações de vestibular: considerações a partir da perspectiva bakhtiniana. Estudos Linguísticos, São Paulo, 41(2): p.419-432, maio-ago 2012.

 

*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada em Letras/Português pela UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas/SP – Atua na área de Educação exercendo funções relativas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação na 1ª fase e de Língua Portuguesa na 2ª fase do vestibular 2013 da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas/SP. Participou de avaliações e produções de diversos materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação.

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos leitores! Suas publicações serão sempre às quintas-feiras, não percam!

 

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