Mais palavras indígenas do cotidiano

No texto da semana passada, eu me limitei a tratar dos topônimos de origem tupi, mas não é apenas na geografia que os habitantes originais do Brasil deixaram suas marcas culturais. (Perdeu o texto da semana passada? Clique aqui)

No nosso dia a dia, empregamos diversas palavras oriundas da cultura indígena, sem ter noção de sua origem. São na maior parte substantivos, mas também há adjetivos e alguns verbos. É difícil precisar o tamanho dessa contribuição, mas calcula-se que só do Tupi herdamos por volta de 10.000 palavras, além da contribuição dada por outros grupos linguísticos, como o karib, o aruak, o entre outras. 1

Os termos relacionados à flora, à fauna e aos hábitos alimentares brasileiros são naturalmente originários da cultura nativa, uma vez que muitos deles não existiam nas terras já exploradas pelos portugueses, nem existiam na Europa. Assim, por falta de termo adequado para tradução, a palavra nativa passou a ser utilizada.

Entre eles encontramos (numa listinha bem modesta) na nossa flora:

  • Abacaxi: ïwaka’ti derivado de(o) ï’wa  ‘fruta’ + ka’ti  ‘que recende’
  • Açaí: ïwasa’i  ‘fruto que chora, isto é, que deita água (ou seja, que dá sumo);
  • Aipim: aipĩ – ‘o que nasce ou brota do fundo’
  • Caatinga: kaa-tínga = ka’a  ‘mato, vegetação’ e ‘tinga  ‘branco, esbranquiçado, claro’
  • Capim: ka’a  ‘mato, erva, planta em geral, mata’ + pii  ‘fino, delgado’;
  • Jabuticaba: ïwapotï’kaba no sentido de ‘fruta em botão’
  • Jerimum: do tupi iurumún, abóbora
  • Mandioca: mandióka, casa (oka) de Mani (a índia que deu origem à planta na mitologia indígena)
  • Pitanga: pytánga a cor vermelha
  • Samambaia: çama-mbai, ‘trançado de cordas’, referente ao emaranhado das raízes dessa planta

A alimentação também dá mostras da contribuição indígena em alguns termos como:

  • Maniçoba: mandi’sowa  ‘folha da mandioca, maniva’, p.ext., ‘comida preparada com a folha da mandioca’
  • Mingau: minga’u – ‘comida que gruda’
  • Moquear: de mokaen – assar , deixar seco – processo pelo qual as carnes eram assadas, para que se conservassem
  • Moqueca: segundo Silveira Bueno, peixe assado embrulhado em folhas (de bananeira ou de caeté)
  • Paçoca: pa’soka,  de po-çoc no sentido de ‘esmigalhar com a mão’
  • Pipoca: pi’póka, grão que estoura

E há ainda aquelas palavras de uso geral, que aparecem nas conversas do cotidiano, em diferentes âmbitos:

  • Arapuca: ara-púka, armadilha
  • Biboca: ymby-mbóka ‘buraco, local de difícil acesso’, do tupi ï’mbï no sentido de ‘terra, solo, chão’ e’mboka no
    sentido de ‘abertura, fenda’ ou ‘oka no sentido de ‘casa, toca’
  • Capenga: de akanga, ‘osso’ + penga ‘quebrado’, o que puxa a perna, que é manco
  • Carioca: de kara’ïwa ‘homem branco’ + ‘oka ‘casa’
  • Catapora: de ta’ta no sentido de ‘fogo’ e ‘pora no sentido de ‘ o que salta’
  • Inhaca: de yakwa no sentido de ‘odoroso’, que cheira forte
  • Jururu: yuru-ru ‘pescoço pendido’, ou seja, quem está triste fica de cabeça baixa
  • Nhenhenhém: de nheeng-nheeng-nheeng no sentido de ‘falar-falar-falar’; blá-blá-blá, conversa fiada
  • Pereba: de pe’rewa  ‘ferida, chaga’
  • Peteca: de  pe’teka  ‘bater com a palma da mão’
  • Pindaíba: segundo Silveira Bueno, de pi’nda  ‘anzol’ + ‘ïwa  ‘haste, vara’,  ‘vara de pescar’ ou ainda, segundo Teodoro
  • Sampaio, ‘aíba’, feio, ruim, daí anzol ruim, que não fornece peixe, indica que há miséria.
  • Sapecar – a origem provável é do tupi sa’pek ‘chamuscar’,
  • Tocaia – de to’kaya ‘pequena casa rústica em que o indígena se recolhia sozinho para aguardar a oportunidade de atacar o inimigo ou matar a caça’

Assim, podemos verificar, mais uma vez, como a língua é viva, adaptando-se aos novos contextos e aceitando as mais diversas contribuições, mesmo que a maioria das pessoas não se dê conta disso…

Até a próxima semana!


CÂMARA JR, J. Mattoso. Introdução às línguas indígenas brasileiras. MEC, 1977.
SILVEIRA BUENO, Francisco. Vocabulário tupi-guarani. São Paulo: Brasilivros, 1987.
Sites relevantes sobre culturas indígenas:
http://mpumalanga.com.br/nossa-missao/ ; https://plenarinho.leg.br/index.php/2017/04/23/todas-as-linguas-do-brasil/ ; https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43010108 ; http://www.unesco.org/languages-atlas/es/atlasmap.html


Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu seu mestrado. Mais de 20 anos de experiência e responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoenem, a professora também é colunista de gramática do nosso portal e umas das corretoras do nosso curso de redação (clique aqui para saber mais) . Seus textos são publicados todos os domingos. Não perca!

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Sobre o Autor

Margarida Moraes
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Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu seu mestrado. Mais de 20 anos de experiência, corretora do nosso sistema de correção de redação e responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoenem, a professora é colunista de gramática do nosso portal.