Vista Pedagógica da Correção da Redação do ENEM

No início do mês de abril, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou aos candidatos do Enem 2013 o acesso à vista pedagógica da redação e o espelho da mesma para que haja acesso aos detalhes de suas notas e de seu desempenho nas provas objetivas e na avaliação de produção textual.

Veteranos do exame sabem o que encontrarão no site do sistema do Enem, mas os candidatos de primeira viagem descobrirão, apenas em 2014, como o MEC disponibiliza essas informações. Para dar um exemplo e analisá-lo, pedimos a autorização de um candidato do Enem 2013 para exibirmos sua vista pedagógica da redação e o seu respectivo espelho em nosso site; obviamente, por questões de privacidade e segurança, omitimos seu nome e seu CPF (Cadastro de Pessoa Física) e o agradecemos desde já pela colaboração.

Ao acessar a página http://portal.inep.gov.br/, o candidato deve clicar na caixa na qual está escrito “Espelhos da Redação do Enem” e inserir seu número de CPF, senha e o código de segurança pedido. Após isso, as informações esmiuçadas estarão na tela do computador da seguinte forma:

Nesta primeira tela, o candidato pode verificar seu desempenho em cada uma das cinco competências avaliadas pela banca corretora da redação do Enem, cuja equipe responsável disponibiliza o descritor de cada uma delas, a porcentagem de acerto e a nota correspondente. O que é escrito a respeito das competências não vai além do que já está disponível no Guia do Participante, documento que sempre é lançado alguns meses antes da prova. A vista pedagógica da redação mostra apenas, sem um grande detalhamento, em qual faixa de nota de/em cada competência, o candidato se encaixa.

Esta redação, especificamente, atingiu a faixa máxima de nota em duas competências (2ª e 4ª); na 1ª e na 5ª competências atingiu 80% da nota, isto é, uma faixa de nota anterior a faixa máxima e, na 3ª competência, ficou na média, obtendo 50% de aproveitamento, o que analisaremos a seguir.

Logo abaixo destas descrições, há um gráfico acerca do desempenho do candidato frente aos demais participantes e a nota final que, neste caso, foi de 820 pontos, algo já acima da média. Podemos concluir, a partir da leitura deste gráfico, que, segundo o MEC, a maioria dos candidatos atingiu a faixa de notas que vai dos 501 aos 600 pontos (27,9%); 24,9% dos textos obtiveram de 401 a 500 pontos; 16,5% ficaram na faixa de nota que vai dos 301 aos 400 pontos e, fechando os textos abaixo e na média, 6,9% obtiveram notas até os 300 pontos. Apenas 13,6% dos candidatos escreveram redações que conquistaram de 601 a 700 pontos; somente 2,3% obtiveram notas de 801 a 900 pontos e 0,9% atingiram a nota máxima, 1.000 pontos, o que já foi discutido e analisado por este portal na última semana.

A seguir, vejamos o espelho da redação referente as notas descritas anteriormente:

Apesar da não obrigatoriedade do título, o autor desta redação a intitulou da seguinte forma: “Inteligente, porém, insuficiente”. A conjunção adversativa “porém” está entre vírgulas, pois o autor quis enfatizá-la, já expressando no título que acha a Lei Seca inteligente, mas também insuficiente, ou seja, já emitiu uma opinião acerca do tema da proposta de redação do Enem 2013, iniciando a caracterização do tipo textual pedido.

Na introdução, o autor recorre, brevemente, à História ao afirmar que as bebidas alcoólicas são milenarmente conhecidas por seus efeitos e o mais famoso deles, a embriaguez (não “embreaguês”, como está equivocadamente redigido), gera vários sintomas que, por sua vez, prejudicam o desempenho dos motoristas e colocam em risco outras pessoas, como os demais motoristas e os pedestres. Caso o candidato tivesse explorado um pouco mais a questão histórica, dando exemplos do papel da bebida alcoólica em algum episódio exemplar, sua introdução estaria melhor construída.

No segundo parágrafo, há uma explicação acerca da atuação da Lei Seca, mas há um erro; ao afirmar que ela “(…) atinge qualquer motorista flagrado com índice de álcool no organismo acima do permitido (…)”, o autor demonstra pouco conhecimento a respeito da referida lei ou pouca atenção, já que a nova redação da Lei Seca determina a chamada “tolerância zero”, isto é, nenhuma quantidade de álcool no sangue é permitida. Antigamente, a tolerância era de 0,5%, mas agora nem isso é permitido. Este equívoco pode ter prejudicado a nota na 3ª competência, pois esta avalia a seleção e a interpretação de informações e este caso é um exemplo de incoerência externa, ou seja, a afirmação está errada.

No mesmo parágrafo, o autor generaliza ao dizer que “(…) esse aumento nas possibilidades de punição faz todos pensarem melhor antes de beber e dirigir (…)”. Seria maravilhoso se fosse assim, mas infelizmente não é e generalizações não são críticas e ponderadas e, por isso, por mais simples que sejam, devem ser evitadas, pois prejudicam também a nota na 3ª competência.

No terceiro parágrafo o candidato relaciona a questão do “dirigir alcoolizado” a questão das infrações cometidas por menores de idade relacionadas, também, às bebidas alcoólicas e à direção de veículos, o que amplia o desenvolvimento do tema.

No quarto parágrafo o autor inicia sua proposta de intervenção social, mencionando como solução mais bloqueios policiais, o que demanda, de acordo com ele, mais investimentos na polícia pelo Estado. O candidato emenda este raciocínio ao quinto e último parágrafo, concluindo sua redação, afirmando que apenas a Lei Seca não basta, que é preciso, além de mais fiscalização policial, palestras nas escolas (relacionadas aos menores de idades mencionados anteriormente), distribuição de panfletos e advertências na televisão que mostrem às pessoas alternativas, como as caronas e o rodízio entre amigos. Ou seja, o autor sugere uma verdadeira campanha de conscientização a fim de que a lei realmente funcione.

Na 5ª competência, que avalia a elaboração de uma proposta de intervenção social, este candidatos atingiu 160 pontos, isto é, 80% da nota. Talvez, o que faltou para os 200 pontos neste caso foi algo mais detalhado e original, já que campanhas já são realizadas pelos governos.

Quando pede-se uma solução para um tema de redação que já é uma resposta à sociedade, o candidato deve ser mais criativo (nesta parte a criatividade é importante) para, realmente, propor algo novo, com grandes chances de dar certo. No caso da Lei Seca, que está relacionada com graves acidentes de trânsito, campanhas mais duras e realistas, com a participação de vítimas de acidentes, de atropelamentos, contando suas histórias em treinamentos para novos motoristas e para aqueles que tiveram suas carteiras apreendidas, aliadas às penas mais severas podem funcionar melhor, dentre outras possibilidades.

Além da questão da intervenção social, pensamos que para esta redação chegar aos 1.000 pontos, faltou um pouco mais de argumentação na questão de que a Lei Seca precisa ser melhorada e deve estar alicerçada em uma estrutura de fiscalização e punição mais eficiente. Por meio de sua leitura, podemos concluir que não é tão difícil atingir uma nota acima da média no Enem, pois este texto é simples, claro e objetivo.

Devemos reparar, também, na letra legível do candidato, na obediências às margens da folha definitiva de redação e na limpeza da escrita, o que demonstra organização, planejamento e calma ao transcrever o rascunho, além de facilitar a correção por parte dos corretores.

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!

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