Redação do Enem: Opinião Própria e Críticas ao Governo

No texto de hoje, abordaremos duas questões sempre muito presentes nos comentários de vários leitores do nosso portal: opinião própria e opiniões contrárias ao governo na redação do Enem.

Principalmente nas publicações acerca dos possíveis temas da prova de produção textual do Enem, muitos leitores comentam que não importa o tema da proposta de redação, pois o que realmente vale é ter opinião própria e não ser contra o governo, já que o Enem é um exame criado e produzido pelo Governo Federal.

Obviamente que, independentemente do tema da proposta de redação do Enem ou de qualquer vestibular e concurso, sendo o tipo textual pedido uma dissertação-argumentativa (pois se a prova pedir gêneros, como a da Unicamp, por exemplo, não necessariamente será exigida a argumentação), ter opinião própria, longe do senso comum, é fundamental para o candidato. Porém, de nada adianta ter opinião própria se esta está mal colocada, não fundamentada em argumentos sólidos e não exemplificada em estratégias argumentativas.

Ao nosso redor, o que mais vemos são pessoas com “opiniões próprias” que não sabem debater e responder ao serem questionadas, pois fundamentam suas teses em achismos, isto é, no senso comum e/ou em fontes não tão confiáveis e, na hora de embasarem suas ideias, não sabem como o fazer. Normalmente, são pessoas que pouco leem e pouco refletem sobre o mundo, que acham que apenas o que pensam é o correto, mas não conseguem dizer os motivos que as levam a pensar determinadas coisas; elas apenas acham ou têm argumentos que são facilmente derrubados.

Ter opinião própria é muito importante, mas fundamentá-la em argumentos embasados em estratégias argumentativas por meio de fontes confiáveis, tecendo relações com demais áreas do conhecimento e tratando o tema com equilíbrio e bom senso é mais importante ainda.

É essencial enfatizar que opinião própria não é sinônimo de extremismo e/ou fundamentalismo, como muitos pensam. Escrever teses ¨oito ou oitenta¨ em redações como a do Enem é suicídio, até porque o exame tem, em sua quinta competência, o respeito aos direitos humanos.

Em relação a expressar opiniões contrárias ao Governo Federal, isso é um grande mito da correção da redação do Enem. Corretores de redação do Enem não são funcionários do Ministério da Educação e sim professores do Ensino Médio, de universidades e/ou faculdades, da área da linguagem, contratados especialmente para o exame e, em seu treinamento, não recebem nenhuma orientação para atribuir notas baixas para textos que tragam opiniões contrárias ao governo. Caso isso fosse feito, o direito à liberdade de expressão, um dos pilares da democracia, estaria sendo ferido.

Por esta razão, os responsáveis pelo Enem não podem e não devem ferir este direito constitucional, até porque estariam sujeitos a processos por parte de candidatos que se sentissem prejudicados.

Em mais de uma proposta de redação do Enem o tema e os textos motivadores davam margem para críticas ao governo, como a da edição de 2013 – “Os efeitos da implementação da Lei Seca no Brasil” -, já que o gráfico utilizado pela banca elaboradora mostrava que o número de mortes em decorrência de acidentes de trânsitos não havia caído significativamente. O importante é, novamente, fundamentar de maneira eficaz esta crítica e saber a quem dirigi-la, pois em redes sociais, por exemplo, temos visto muitas pessoas criticarem o governo federal por problemas competentes ao governo estadual e vice – versa. Há muita confusão e desinformação a respeito das competências de cada nível de governo, o que nos leva, de novo, ao achismo.

Aproveitando o ensejo, outro mito é pensar que o corretor pode ou não gostar do texto como um todo ou da tese do candidato. Corretor de redação do Enem e de demais vestibulares não têm de gostar ou não das redações; ele tem e devem avaliá-las de acordo com a grade de correção e ponto final. Somente isto.

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos serão publicados todas às quintas-feiras, não percam!

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