Os saberes tradicionais

A maneira como vivemos hoje é decorrente de um longo e complexo acúmulo de práticas, técnicas e significados. Esses três elementos articulados constituem não só a maneira subjetiva pela qual vivemos, o modo como nos inserimos e lidamos com o mundo, mas também a maneira concreta, uma vez que são os seres humanos, através dos conhecimentos disponíveis no momento histórico ao qual estão colocados, que constroem os lugares onde vivem, trabalham, celebram e desenvolvem outras atividades. Neste sentido, conhecer os saberes tradicionais que antecederam os saberes modernos de cada localidade é um jeito de percorrer o caminho de construção da realidade e, assim, apropriar-se da história do próprio povo.

Figura reproduzida do site: https://autossustentavel.com/2016/03/a-protecao-do-conhecimento-e-dos-saberes-tradicionais-e-a-lei-no-13-123-2015.html

Mas o que entendemos por “saberes tradicionais”?

Os saberes tradicionais são um conjunto de conhecimentos (práticas, técnicas e significados) construídos no seio de comunidades tradicionais ou originárias, são caracterizados por uma série de métodos de manejo e compreensão sobre a fauna e flora que circunscrevem esses povos. Estudá-los possibilita entender como determinado grupo se relaciona com o meio ambiente e como essa relação entre humanidade e natureza remonta os primórdios de qualquer tipo de organização social, visto que os recursos naturais são a base de toda existência humana – inclusive hoje, com tanta tecnologia e desenvolvimento científico, não é possível pensar em vida sem elementos naturais básicos, como água, alimentos, oxigênio etc.

A transmissão desses saberes ocorre por meio da oralidade entre as gerações mais antigas e as mais novas. Diferentemente de nós, povos “modernos”, os povos originários não sistematizam e acumulam informações em papéis ou banco de dados, o conhecimento fica armazenado no próprio sujeito – por isso os mais velhos são tão respeitados, eles detêm conhecimento acumulado de várias gerações.  

Essa valorização do indivíduo e de suas qualidades e saberes acumulados, expressou-se de maneira muito particular em diferentes grupos. Tupinambás e alguns grupos tupis-guaranis, por exemplo, praticavam a antropofagia (“anthropo”, que significa “homem” e “phagia”, designa ”comer”, isto é, literalmente comer carne humana), um ritual exotérico de guerra, no qual os indígenas da comunidade vencedora assavam e comiam os melhores e maiores guerreiros capturados da comunidade rival com o intuito de absorver e interiorizar suas capacidades e força. Tal prática, apesar de estranha a nós, não quer dizer que esses grupos eram selvagens ou atrasados, apenas que possuíam rituais culturais próprios, cujos princípios não podem ser interpretados a partir da nossa própria cultura, é necessária alteridade.

Figura reproduzida do site: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/o-que-e-antropofagia-entenda-esse-fenomeno-social-e-sua-diferenca-do-canibalismo.phtml

Os saberes e modos de vida tradicionais são formas de resistência à lógica hegemônica, seus conhecimentos sobre a natureza (e egressos dela) nos ensinam formas sustentáveis de agir sobre o meio ambiente. Diferentemente das sociedades capitalistas, pautadas na acumulação de riquezas materiais e na exploração predatória dos recursos naturais, os grupos tradicionais dão exemplos de relações equilibradas com o planeta, mostrando-nos como conservar e utilizá-los sem ameaçar sua existência.

Independente das diferenças culturais, esses povos não são inferiores ou atrasados. Seus ritos, práticas e conhecimentos, fundados na experiência perceptiva, são um legado precioso da história humana e sua existência é um exemplo de que poderíamos viver de maneiras diferentes das quais vivemos. A luta dos povos indígenas, nesse sentido, é uma luta pela conservação da história e, também, do conhecimento. Eles são os verdadeiros portadores da história de cada país.

Questão

(ENEM 2021) No semiárido brasileiro, o sertanejo desenvolveu uma acuidade detalhada para a observação dos fenômenos, ao longo dos tempos, presenciados na natureza, em especial para a previsão do tempo e do clima, utilizando como referência a posição dos astros, constelação e nuvens. Conforme os sertanejos, a estação vai ser chuvosa quando a primeira lua cheia de janeiro “sair vermelha, por detrás de uma barra de nuvens”, mas “se surgir prateada, é sinal de seca”.


MAIA, D.; MAIA, A. C. A utilização dos ditos populares e da observação do tempo para a climatologia escolar no ensino fundamental II. GeoTextos, n. 1, jul. 2010 (adaptado).


O texto expõe a produção de um conhecimento que se constitui pela

a) Técnica científica. 

b) Experiência perceptiva.

c) Negação das tradições.

d) Padronização das culturas. 

e) Uniformização das informações.

A alternativa correta é a letra B.

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A língua portuguesa é de fato muito rica e por isso traz um grande número de possibilidades para algumas palavras e isso, às vezes, pode causar dúvidas aos falantes de seu idioma. Uma dessas dúvidas mais comuns está ligada ao uso dos “porquês”. Na fala não há motivo nenhum para preocupação, mas na hora da escrita em norma padrão quase sempre é feita uma consulta para saber a diferença entre um e outro e não fazer feio no texto.
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O que é SiSU?

É o sistema informatizado do MEC por meio do qual instituições públicas de ensino superior (federais e estaduais) oferecem vagas a candidatos participantes do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).
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Sobre o Autor

Brenda Buzzo
Brenda Buzzo

Estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Possui formação técnica na área de alimentos pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Campus São Roque. Tem experiência em pesquisa na área de sociologia da alimentação e possui interesse nas áreas de pensamento social, estudos de gênero e sociologia política.